O coração é redondo

abril 27, 2013 às 6:59 pm | Publicado em Escute Djogai falar, Poesias | Deixe um comentário

A maresia me abraça
Sussurrando lembranças do mar
Que está desolado e glauco
Como a cegueira
Você foi embora
Você e ele, o mundo
Que vão gargalhar abraçados
Tropeçando nas pernas
Um do outro
Temo que seja desprezado
Não pelo desdém do fracasso
Mas pelo fascínio do sucesso
Que é desprezo encantado
Dou um gole na bebida
Aparentemente fria
O beber absoluto desta Margarita
É prova de que o amo
Porque sorvo cada gota
Sem qualquer ansiedade
E brindo os momentos felizes
Que passará em outros braços
Vai, amor, o portão de nossa casa
Só é visto do lado de fora
Vai, não receie o mundo
Vai, pressa corrida de pesadelo
Pra esse eco que ecoa outro eco
Pra esses nós teimosos
Que quanto mais desata, ata
Para voltar sem medo
Porque eu não quis me casar
Porque eu não quis o perjúrio
Nem um véu entre os lábios
Foi embora, eu sentada ao sol
Continua a olhar para trás, eu parada
Se vira de novo, eu sorvendo
E imerge no firmamento do mar
Eu sorvete
Vai, navega com gana, capitão
Singra mares, oceano
Dispara pelos espaços
O torso nu refletindo as paisagens
Fugindo a sota-velas das dores
Que você precisa passar
Dores que eu não desejei
E, porque eu não desejei
Cada cicatriz de seu rosto
Desenha o mapa de volta
E agora retorna, eu sinto
Vem, está exausto
Isto, deita em meu peito
Sente a paz
Que precede o sono

DJOGAI

Dez lições práticas para se tornar um escritor genial

janeiro 16, 2013 às 7:51 pm | Publicado em Sem categoria | 1 Comentário

1 – Torne-se primeiro um grande escritor e, depois, um grande homem. Nunca o contrário.

2 – Ser um grande escritor, depois de ser um grande homem, é como ser ovo depois de ser galinha.

3 – Se ainda assim continuar escrevendo, não é grande homem. Seu espírito está abarrotado de egolatria e megalomania e sua alma pode ganhar a perdição eterna.

4 – Pode ganhar também o prêmio Nobel.

5 – Ou ganhar glória maior: tornar-se um autor maldito e o Nobel perder prestígio devido à sua ausência.

6 – Vá receber o Nobel e afirme que literatura é lixo.

7 – E que a Academia Sueca deveria ganhar um prêmio por reciclagem.

8 – Flerta com o inferno e acredite no diabo. E não se importe com a contradição de ser ateu.

9 – Contradição nada mais é que riqueza metafórica.

10 – Encha as páginas de sentimentos humanos, mas pleno de ódio pelos humanos.

BINHO

A misantropia dos gênios

fevereiro 25, 2012 às 12:05 pm | Publicado em Crônicas Diárias | Deixe um comentário

Comentou o crítico literário Harold Bloom em seu livro, O Cânone Ocidental, sobre a famosa personagem de Molière: “Alceste, por mais energético e admirável que eu o ache, é a consequência direta de não seguir o conselho de Montaigne que concluiu ‘Da Experiência’: As pessoas obcecadas por esta ideia de separar o corpo do espírito, de se tornarem diferente e deixarem de ser homens são loucas; não se transformam em anjos e, sim, em feras. No fim, desejando fugir para uma solidão deserta (por mais metafórica que seja), o que Alceste faz é cortejar tudo que Montaigne mais temia”.
Muito estranho este posicionamento do eminente crítico literário. Se desse modo interpreta o misantropo Alceste, por que não faz recair a mesma censura nas grandes personagens da História Literária que são quadros perfeitos de misantropia? Hamlet, a quem o crítico estima à altura de suma sabedoria, é o campeão do comportamento misantrópico. O herói mata pelas próprias mãos ou é responsável pela morte de seis ou sete pessoas. Transforma em pó todo o assentamento social à sua volta e quase toda a relação afetiva, inclusive – e, talvez, sobretudo – o afeto materno, transubstanciado em sua amada Ofélia. E este célebre protagonista é acompanhado em sua misantropia obcecada por quase todas as grandes personagens da literatura universal: Aquiles, Ulisses (de Homero), Agamenon (de Ésquilo), Édipo (de Sófocles), Medeia (de Eurípedes), as mais notáveis personagens dantescas, Quixote, El Cid e Chimène, Alceste, D. Juan, Tartufo, Fedra (de Racine), Satanás (de Milton), Fausto, Julien Sorel, André Bolkonsky, Hadji Murat, Raskólnikov, Peer Gynt, Hedda Gabler, Marcel (de Proust), Gregor Samsa, Josef K, Vladimir e Estragon… Além das grandes personagens do próprio Shakespeare: Lear, Otelo, o casal MacBeth, Faustaff… Isto para ficar apenas nos protagonistas das maiores obras, dos maiores autores. Reparem como todos eles radicam na misantropia, (com a simpatia de todos nós) até deliberarem sua exclusão integral da sociedade: o encontro com a morte – nem sempre lograda.
Não vemos aí algo de profundamente contraditório no raciocino de Molière, ao criar Alceste, assinalado por Bloom, corroborado pelo pensamento de Montaigne e visivelmente alicerçado pelos gênios do pensamento universal? Isto é, criticam aqueles que consideram misantropos e, no entanto, defendem verdadeiros epítomes de misantropia. Ou, por acaso, tomam por comportamento misantrópico apenas o indivíduo que evita os seus pares? Não é misantropo quem permanece em convívio social, mas vive a rebaixar, maltratar, ferir ou matar as pessoas de seu círculo de relações, notadamente a família? Dicionário Aurélio: misantropo: 1. Que ou aquele que tem ódio ou aversão à sociedade 2. por ext. Que evita a convivência; que prefere a solidão; que é solitário, insociável. Se valesse apenas a segunda, a acepção por extensão, por que do adendo de Bloom: “por mais metafórico que seja”? Evidente que os bien pensants sabem que misantropo é aquele que rejeita a vida social, de corpo presente ou não. Ora, então por que distinguir Alceste de Hamlet, de Fausto, do Quixote, dos outros todos? Na verdade, a espécie de misantropia que os gênios modernos não admitem em Alceste – a qual procuram qualificar à conta de sociopatia – é a do indivíduo ante-social, porque liberto das ligações puramente sociais. Na realidade, não gostam do indivíduo forte, emocionalmente independente. O homem desapegado a tudo o que o impele ao convívio forçoso, uma vez que ele não sofre as injunções da paixão e refrata as convenções da sociedade, da família, da religião que sedimentam a passionalidade. O homem que não se deixa arrastar por uma paixão desenfreada nem cede a parceiro afetivo que satura seus pensamentos, domina-o, em quem não confia e que, não raro, fá-lo sentir-se um “cocu imaginaire”, estragando seus dias.
Reparem como é maravilhosa a alma humana. Dentro de nós temos inscrito o projeto do que devemos ser. No fundo, cada um destes grandes gênios da literatura ou da filosofia, ressente-se por ser presa das forças afetivas passionais, que nos aferroam a pessoas ou círculos de pessoas desqualificados. E sofremos barbaridade por tal fraqueza. Freud se acerca do fenômeno ao definir a distinção de Superego, Ego e Id. Com efeito, existem forças dentro da psique que lutam entre si, uma incitando ao avanço emotivo, outras, retardando-o, e fazem o indivíduo ressentir-se de si, no momento em que não concretiza uma qualidade potencial. Isto é, o sujeito torna-se desgostoso da própria conduta, conscientemente ou não, quando seu íntimo demonstra a plena possibilidade de maturação e as forças psíquicas contrárias o fazem derrapar.
E não se trata de coincidência quase constrangedora o fato de Nietzsche, o mestre não professo de Bloom (pai da teoria da Escola dos Ressentidos) ter sido o grande teórico do ressentimento (emulando o ressentiment de Stendhal, que, aliás, prestou ao filósofo alemão muito, muito mesmo, do que este elaborou)? Quer dizer, todos os três conhecem bem o ressentimento, entendem perfeitamente o efeito do agon vivido pelos gênios frente à sobrevivência, neles próprios, dos seus limites sentimentais, deflagrados pela simples presença de indivíduos maduros. Ressentem-se dos homens independentes que um dia serão, mas entorpecem este subjacente e incômodo sentimento criando teorias sofisticadas e cosmogônicas – aqui Nietzsche se acorre de Heráclito, com Bloom o secundando – onde o filósofo alemão enaltece as potências criativas do ser (eróticas, ainda que apolíneas) em oposição ao que considera a fria razão socrática que estiola o vigor e a auto-estima dos jovens e, enfim, de toda a sociedade. Tudo muito brilhante, claro. Brilhante demais, sofisticado demais para se preocuparem com um problema prosaico como este: precisam dominar sua dependência afetiva; precisam se tornar livres de suas paixões; importa serem misantropos no melhor sentido da palavra. Mas não querem admitir-se presos. Ao contrário, dizem-se fortes, vitalistas, muito diversamente da espécie de homem que criticam, o homem médio, o qual tomam por foragido da vida social, dos riscos da paixão e da sexualidade aberta, porque é fraco, tíbio de coragem, sem energia para encarar os embates do relacionamento. Deveras, sua crítica é justa e oportuna com respeito à maioria das pessoas. O homem médio realmente age conforme eles criticam. E se serve da conversa fiada, da argumentação auto indulgente criada pelos sacerdotes das igrejas institucionais para escamotear sua mediocridade. Sim, pois eles, estes egrégios sacerdotes, mais não fazem que criar uma argumentação que diviniza os sentimentos mesquinhos do homem médio. Chamam de piedade ao que não é mais que covardia, tomam por pacifismo ao que não passa de passividade, querem ver serenidade aonde só existe desânimo e languidez. Contudo, a despeito de ser assim a imensa maioria, há os homens auto dominados. E verdadeiramente livres. Apenas um liberto emocional já é o suficiente para se constatar a possibilidade de todo homem realizar-se no campo emocional.
No esforço de justificarem seu limite e rebaixarem o indivíduo maduro, os pensadores estetas confluem em mais um argumento teórico: a tese da “energia”, quando a supõe como a suma qualidade a que pode aspirar um homem ou personagem, ou um homem-personagem. A energia, fenômeno salientado por Stendhal e emulado de novo por Nietzsche; e Bloom. A energia que este admira em Alceste. Qualidade de homens de fibra e audaciosos que não hesitam em se atirar às aventuras que lhe impõe a vida, vivendo-a deveras, ao contrário do resto dos mortais, pusilânimes, sem vitalidade, escondidos em suas vidinha assustada. Entre a dor e o nada, preferem a dor, como escreveu Willian Faulkner, num corte de brilhantismo. Realmente brilhante, eles produziram uma arguição incrível – e o digo sem ironia. Ninguém defendeu o erro com tanto acerto. Mas o que sempre me impressiona sobre tudo mais é a capacidade humana de pintar o erro com a mais refulgente das tintas. Quanta energia boa dispensada para a esterilidade. Asseguro-lhes, meus inteligentes e talentosos irmãos, vocês estão à porta. Deem um passo, um só. E entrem. Se acaso eu tivesse sua genialidade, com que facilidade lutaria contra meus limites emocionais. E entrava.
No entanto, a verdade, mesmo tosca, engrola incomodamente suas impertinências. Ao ler a biografia dos grandes filósofos, inclusive os da arte, verificamos que suas vidas não foram outra que a de um misantropo rematado. Elas se mostraram, no melhor das hipóteses, longa solidão acompanhada. Tanto ou mais solitária que a existências de seus Alcestes que direta (Molière) ou indiretamente (Shakespeare) os gênios da literatura criticaram. Como afirmei, os filósofos estetas perderam tanta energia cognitiva para se justificar – e energia física para manterem um pífio equilíbrio mental – que acabaram cometendo o erro que Nietzsche recriminou em Sócrates. Racionalizaram demais e deixaram de viver o amor e, até, a sexualidade, em toda sua extensão de possibilidades, morrendo sós e desapaixonados.
Se eram misantropos, por que de construírem tão articulado edifício filosófico contra a misantropia? Desconfio que tinham medo de se separarem de seus corpos. Não falo de se separarem das compulsões naturais de seus corpos. Não. A parte sexual é uma bobagem, pura periferia, frente a todo o resto que o indivíduo tem que se desapegar na alma. Vivam a sexualidade com alegria e em todas as suas potencialidades, pois o que prende a alma ao corpo é a dependência afetiva, o vício do aplauso, tão característico dos artistas e demais homens de eminência cognitiva.

BINHO

Sofisticação

janeiro 16, 2012 às 2:02 am | Publicado em Crônicas Diárias | Deixe um comentário

Assisti por estes dias a um comercial de televisão, onde uma top model passarelava pelas ruas de Paris, a fim de emprestar um verniz de sofisticação aos cosméticos que divulgava. Verniz por quê? Acaso a capital francesa não tem a força de imprimir sofisticação como no passado? Nada disso, as coisas continuam iguais. A França ainda é decisiva na haute culture. Porém, com a educação das classes média e baixa, e a emersão da bolha de cultura de massa cheia de estardalhaço e esterilidade, capitaneada pelos Estados Unidos, fica a impressão de que o país europeu perdeu espaço. Mas a França lembra um vale ajardinado em que é a estufa, matriz de toda a vegetação, porém não mais que um ponto do horizonte. Se assim não fosse, os redatores da campanha de cosméticos teriam escolhido Nova Iorque ao invés de Paris. Então, o que tomo por falso no reclame de tevê? Falso é locar a capital francesa com o fito de imantar sofisticação aos produtos comerciais. O capitalismo sempre soube fazer esta expropriação indébita a todo o princípio de valor humano, de maneira a envelopar seu material descartável. Este o problema. As pessoas mostram o corpo da sofisticação e se esquecem da alma. Mas, sendo assim, o que de fato imprime sofisticação a Paris? O que é sofisticação?

Estava outra feita a assistir a esta caixinha de surpresas evanescentes que é a televisão, quando passou um programa que realmente responde estas perguntas. Uma jovem senhora caminhava pelo Central Park, enquanto fazia alguns comentários sobre o comportamento do homem moderno. Apinei-me no sofá, a atenção cada vez mais pregada na tela, aquilo era sofisticação. Não sei o nome dela nem qual era o programa, o qual peguei já pelo meio infelizmente. Afirmava mais ou menos o seguinte: nos dias de hoje, o sujeito precisaria ser “mega ético” para ter uma conduta sólida, em face da dissolução dos princípios do mundo atual. Observou que homens proeminentes, como o ex-presidente Bush, orgulhavam-se de assinar a condenação de morte de um indivíduo ou de arrasar um país pobre e indefeso. Lembrou que Derrida já observara que um ser humano de valor não poderia ser feliz, enquanto existissem as tantas desgraças e misérias espalhadas pelo mundo. Tive vontade de me casar com ela. Que respeito e admiração senti por sua delicadeza e sofisticação de espírito.

Não que me impressionassem seus argumentos. Não, não. Na verdade, nem compartilho seu posicionamento filosófico. Não gosto muito dessa posição de Jacques Derrida que, para mim, é um retempero do conceito de angústia de Kierkegaard, via Heidegger. Chego mesmo a ver contradição no raciocínio da delicada moça. Ela dá suporte à atitude “mega ética” através da filosofia, quando é ela, a filosofia moderna, o maior instrumento para a relativização da ética. Finda a primeira década do novo milênio, vislumbramos já com certo distanciamento o século passado e compreendemos o descompasso do pensamento moderno, com suas teorias contrastantes, caóticas e, ao fim, autofágicas, levando a humanidade a uma verdadeira balbúrdia filosófica que, por isso, não traz nenhum assentamento da ideia de ética. Vimos se estiolar o pensamento existencialista (ou fenomenológico) de Sartre e Camus, roubando de seu pai espiritual, Kierkegaard, a espiritualidade que ainda fixava nortes de conduta (concorde-se ou não com sua moralidade). O reducionismo ou a desconstrução do código verbal com o fim de encontrar a verdade básica, elementar, laborada por Russell e Wittgeinstein (e Saussure; e Derrida…), foi minada pelas contestações sistemáticas dos filósofos que os precederam. Habermas só contribuiu para a ética apriorística ou transcendental de Kant ficar ainda mais desacreditada (e toda a metafísica). A desilusão do socialismo fez a Escola de Frankfurt parecer uma piada e tudo acabou por deixar um vácuo completo de ética no pensamento do Ocidente. Enfin Nietzsche vint! E veio com toda sua filosofia imberbe, eivada de falta de sentido orientador, levando ao nada, nihil, o que significa dizer, à destruição – seu pensamento foi protéico ao nazifacismo, sem que o filósofo tenha sido, como acusado, nazista, anti-semita ou niilista.

Quer dizer, toda a reserva ética orientadora pré-existente foi pulverizada pelos avatares da filosofia dos séculos XIX e XX e não resta hoje pensamento substancial que dê delimitações ou parâmetros para se saber diferenciar o certo do errado.

Alguém poderá perguntar: se o raciocínio filosófico da delicada mulher do Central Park não era o que me pareceu o mais sofisticado, o que era então? Seria, claro, exagero não ver uma nota de sofisticação na base filosófica do raciocínio da moça. Mas, para mim, o que havia de sofisticado, de rematadamente sofisticado no que dizia foi o fato de, a despeito de não contar com nenhuma base teórica para sustentar sua ética, ela teimava em ser ética. Mega ética. E não tenho a menor dúvida de que o era em face de ser contracorrente, sem nada para consubstanciar-se, sem nada para ganhar. Isto me impressiona. Ora, para mim é fácil desejar ser ético. Quem é cristão sincero, ou budista, ou taoísta, ou sufista…, acredita na existência de um deus e, pois, tem que necessariamente acreditar numa lógica cosmogônica, visto que, acreditar em um Criador, implica em acreditar em suas leis morais. A norte americana, no entanto, aparentemente sem base religiosa, caminhando com a calma digna de quem está deslocada no epicentro do capitalismo selvagem, professava a ética. Não tinha nada que a fizesse acreditar no que quer que fosse e, porém, recusava-se terminantemente a dispensar a conduta ética, sabendo o quanto sacrificaria em não compactuar com a confraria de interesseiros e arrivistas cada vez mais poderosos, incensados e cooperativistas. E o tanto que sofreria em estar vulnerável e sem recursos, sobretudo no meio onde a vida exige das pessoas mais competência e competitividade e onde as cobranças vêm com maior acidez: na família. Eu, que não passo de um cristão convicto, não faço mais que o dever banal e primário no momento em que observo códigos morais. Ela não. Tem tudo para não seguir orientação alguma, ética que seja. Além disso, tem a desesperança. Eu conto com a crença de uma ordem acima de todas as coisas. Tenho ninguém menos que Deus para me proteger, enquanto ela nem sabe se ele existe. E tenho a satisfação íntima, que não revelo a ninguém (para posar de amoroso com meus semelhantes), de que todos os desonestos e omissos irão pagar cada mínima dor provocada aos outros. Ela, por seu turno, amarga o testemunho diário ao ver os canalhas levando quase sempre a melhor neste planeta desigual e dissimulado. Chego mesmo a pensar que, perto dela, sou menos crente. Ela é quem na verdade crê, com pureza, porque não tem qualquer motivo pessoal para fazê-lo. Conta realmente com uma força misteriosa e imponderável que a sustenta. Só posso entender que, no fundo, acredita nos sentimentos. Acredita no amor, por que certamente o sente em grau elevado. Para mim, significa o máximo de sofisticação a que um ser humano pode chegar. É fácil acreditar na existência de normas de conduta sociais ou religiosas quando se é um cidadão mediano, domesticado pelas convenções sociais, temente a Deus e à cadeia. Ademais, um ser mediano tem menos capacidade crítica e, pois, menos espaço de ação pessoal. Não decide por si, a sociedade decide por ele. Assim, quem questiona pouco, decide pouco e tem menos responsabilidade por seus atos. Minha nobre norte americana, pelo oposto, decide muito. Porque questiona. E questiona muito, alicerçada nos homens mais inteligentes do planeta, os filósofos, com as posições críticas mais demolidoras. No entanto, contra todas as expectativas da razão, ela se finca na ética. Precisa ser mega ética para conseguir enfrentar tanta carga contracorrente. Não só da sociedade, mas de si, de sua própria apreensão de mundo. Maravilhoso. Eu não sei se conseguiria resistir a tanta pressão contrária se estivesse no lugar dela. Provavelmente, viraria tão cético e desalentado que, perto de mim, Schopenhaeur pareceria o Candide de Voltaire.

Com tanta falta de parâmetros, a filosofia cedeu espaço para a filosofia dos estetas (e não é o dionisíaco Nietzsche, o queridinho dos artistas, antes de tudo um artista?). O pensamento dominante encontra-se sitiado pela crítica literária que quer nos impor a verdade através do tropo do tropo, isto é, do mistério. Veneram Cervantes, Shakespeare ou Dante pelo que suas obras possuem de mais oculto ou super metafórico, o que dá no mesmo. É o conceito redutor da mensagem de Pound, ou o conceito de obra aberta, de Eco, ou seja, a obra torna-se tão mais rica quanto mais permitir interpretações diversas, ou quanto mais significados expressarem seus significantes. Colocam uma metáfora numa caixa de espelhos e se admiram do efeito caleidoscópico, pela multiplicidade infinita de perspectivas a que induz.  Para eles, está aqui a quintessência da sofisticação. Amam Shakespeare, Borges, Kafka, sobretudo pela abrangência de sua inteligência a qual “não podemos apreender”. Amam o mistério acima de todas as coisas. Sim, todos amamos. Deveras, o mistério, ou o desconhecimento, engloba tudo aquilo que ainda não conhecemos, que será sempre, infinitamente, maior e mais instigante do que tudo o que conhecemos. Seguem a brilhante intuição nietzschiana de que a ideia apreendida por palavras perde de imediato sua riqueza de conteúdo. Acontece que no desconhecido encontra-se toda a inteligência do mundo, mas também toda a burrice. Não podemos nos permear pelo mistério, mas pela verdade eclodida, pobre que seja. Quando a encantadora norte americana deixou de lado o conhecimento “cosmogônico” e inapreensível de Goethe ou de Joyce, ela sabia que precisaria ser mega ética, para continuar sendo íntegra, pois os sofisticadíssimos gênios estetas não saberiam lhe dizer porque deveria devolver o troco que o caixa do supermercado lhe deu errado. E não venham me dizer que existia, em sua correção de conduta, certo atavismo da cultura judaico-cristã. Não, de modo algum. Ela era sofisticada demais para seguir estas ideias sem fazer a crítica. Ela seguiu a ética por outro motivo, mais profundo e vibrante. Sucede que o sentimento de não querer prejudicar ninguém ou, mais, sentir-se feliz com a felicidade alheia tornou-se um clichê desinteressante para a filosofia e a arte. Culpa do homem que esvaziou o sentido destas palavras no momento em que não as realizou em atos. Porém, tornar-se humano ainda é o que de mais sofisticado pode o indivíduo laborar, sobretudo, quando se vê emancipado do inconsciente coletivo e não tem qualquer estímulo externo para fazê-lo. Deu-nos uma lição do que nos distingue como seres humanos, esta sophisticaded lady.

 

BINHO

 

 

Ressonância

janeiro 13, 2012 às 12:59 pm | Publicado em Aforismos Desaforados | Deixe um comentário

Há pessoas que vociferam o anseio em ter indivíduos realmente humanos por perto, quando estes estão longe. Quando estes estão perto, anseiam em vociferar que longe estão indivíduos realmente humanos, se pessoas há.

THIAGO DACLÔ

Perdão

janeiro 6, 2012 às 4:18 pm | Publicado em Aforismos Desaforados, Escute Djogai falar | Deixe um comentário

Nada como conhecer as crianças para perdoar os adultos

DJOGAI

Sou – Canto 34 – Alva

novembro 9, 2011 às 11:41 pm | Publicado em Sou | 3 Comentários

Continue, Fábio
Olhe onde pisa
A senda se estreita
Cada passo
Há que calcar bem
Nesta treva eleita
Desce mais pelos túneis
Você ainda se encontra aquém
A ira tem tons
De rosa
A inveja
Torna-se alva
E viscosa

Estalactites
Estalagmites
Luz ao fim do túnel
Qual se visse
De dentro afora
A garganta em funil
E o túnel se comprime
Como uma boca
Em que trava
O azedo
E você
Engrandece
Qual levedo

Coisa esquisita
Sente-se grande
E tudo o rebaixa
Mas se estava
Em caverna ampla
Achava-se um nada
Então, cuida ver dentes
Enquanto cresce
Almas obesas
Encalham
E presas
Cumprem seu fim
Cortam e talham

Mas ei-lo, Fábio
Ei-lo que passou
A estreita caverna
Está de pé
Então pode andar
Nesta estrada averna
Caminha ereto e forte
No entanto, nunca
Se empertigue
Sê o que diz
Mas o frio
Dobra a todos
Não sua cerviz

Línguas de fogo
Bafo gélido
Áspero e cortante
Não o abatem
Você tem calor
Próprio e abundante
Mas os outros ressentem o frio
A soma dos imos
Forma o lugar
Frio e ermo
Local que é
Sempre será
Mal sem termo

RAFAEL

Sou – Canto 34 – Alva V

novembro 9, 2011 às 11:39 pm | Publicado em Poesias | 1 Comentário

Línguas de fogo
Bafo gélido
Áspero e cortante
Não o abatem
Você tem calor
Próprio e abundante
Mas os outros ressentem o frio
A soma dos imos
Forma o lugar
Frio e ermo
Local que é
Sempre será
Mal sem termo

Sou – Canto 34 – Alva IV

novembro 9, 2011 às 6:35 pm | Publicado em Poesias | 1 Comentário

Mas ei-lo, Fábio
Ei-lo que passou
A estreita caverna
Está de pé
Então pode andar
Nesta estrada averna
Caminha ereto e forte
No entanto, nunca
Se empertigue
Sê o que diz
Mas o frio
Dobra a todos
Não sua cerviz

Sou – Canto 34 – Alva III

novembro 8, 2011 às 10:27 pm | Publicado em Poesias | Deixe um comentário

Coisa esquisita
Sente-se grande
E tudo o rebaixa
Mas se estava
Em caverna ampla
Achava-se um nada
Então, cuida ver dentes
Enquanto cresce
Almas obesas
Encalham
E presas
Cumprem seu fim
Cortam e talham

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