A obrigatoriedade do diploma de jornalismo

Julho 3, 2009 at 1:49 am | In 1 | Leave a Comment

Quando eu cursava jornalismo, um grupo de alunos reuniu-se para reforçar a obrigatoriedade do diploma. Pediam que os alunos assomassem ao pátio e baseavam seu protesto no fato dos grandes jornais estarem contratando estagiários para fazer o serviço das redações. Pagavam menos e despediam jornalistas antigos. Conhecido meu não foi, argumentando que, se estagiários podiam fazer o que pretendíamos depois de 4 anos de estudos, para que o diploma? Até nos formarmos, fez campanha contra a exigência legal do curso de jornalismo para exercer a profissão. Se o curso não me capacita, não me diferencia, não aceito que uma lei o faça, ele dizia. Ora, não é o jornalista o homem que deve sair pelas ruas a fim de conhecer o problema da comunidade e divulgá-lo? E todo o problema social não vem da estratificação? E reserva de profissão, tem que nome? Alguém o elogiou abertamente: bom seria se todos fossem assim, nada elitistas. Quê? Respondeu ele. Sou o maior dos elitistas. Só não quero diplomar a minha incompetência.

(postado no www.digestivocultural.com )

Fidelidade

Junho 24, 2009 at 5:00 pm | In 1 | Leave a Comment

A vista era linda
E sobre nós, o penhasco
Era tudo o que eu esperava
A brisa a abrandar o sol
O horizonte, o véu de noiva
A se desmanchar no rio
E meu amado a me apoiar
Dou mais um passo
Segura em sua mão
Ansiosa em ver o fundo
Você já me traiu?
Ele pergunta
Eu rio
Dou uma boa gargalhada
Sozinha

CRISTINA

Poema galante perfeito

Junho 23, 2009 at 6:14 pm | In 1 | Leave a Comment

Da beleza que aflui por teus encantos
Vi dum golpe o risco de uma lágrima
Deste rosto terno como o espinho
Enxergo cera ao que era alvo linho

Em que te transformaste te pergunto
Porque és diversa, ris, e veste luto
Noutro tempo me surgiste, e me velaste
Foi amar-te para andares feito haste

No passado me sagraras cavaleiro
Mas a espada que puseste na ombreira
Bebe agora com prazer em meu pescoço
Dum instante velho sou, há pouco moço

Tua lágrima não escorre pelo rosto
A qual um dia eu supus que fosse água
É pingente de cristal e torno ao mosto

Thiago DaClô

O Corinthians é o pior time do mundo

Junho 6, 2009 at 5:36 pm | In 1 | 4 Comments

Quero aqui provar por a + b que o Corinthians é o pior time do mundo. Basta olhar com cuidado e você, caro leitor, chegará à mesma conclusão.
Todo mundo sabe que a torcida corintiana é conhecida como a mais fiel de todas, certo? E por que acham que os corintianos são tidos por fiéis? Simplesmente, porque o cidadão precisa ser fiel para torcer pelo Corinthians. Usemos um exemplo prático em nome do bom entendimento. Quem vocês acham que é mais fiel, o amante de Helena de Tróia ou o da tia Nastácia? O time faz feio e, portanto, haja fidelidade pra quem se aventura a torcer por ele.
Não venham me dizer que o Corinthians tem muitos títulos, porque não tem, não. Posso garantir que meu time, o grandioso Juventus da Mooca tem mais glórias para se gabar. O quê? Estou avariando? Então, raciocinem comigo. O Corinthians tem talvez a maior torcida do Brasil e, por isso, é a equipe mais rica. Mas, em termos de títulos importantes, perde para todo mundo: Flamengo, São Paulo, Grêmio, Santos, Cruzeiro, Palmeiras, Fluminense, Internacional… Em um século, nem com um titulozinho vagabundo como campeão das Américas ele conta. Um time com esta torcida, com este dinheiro todo, tinha a obrigação de figurar bem à frente dos demais, ora esta! É como se você fosse o Frank Sinatra e só pegasse as coristas.
Como tudo, a grandeza se mede pela equação: recursos disponíveis dividido por resultados práticos. Agora, analisem o glorioso Juventus. Com sua torcida que não dá para encher um furgão, deu alegrias históricas à sua torcida.
Eu que não quero ser fiel assim, Deus me livre! De jeito nenhum. Acha que vou ter algum orgulho de me chamarem de fiel porque estou com a tia Nastácia? Prefiro que digam que não tenho mérito nenhum em ser fiel, porque estou com a Ivete Sangalo.
Eu me lembro de quando era criança e ia para os estádios. Na época, o São Paulo era um time do tamanho do Juventus. Sua torcida era tão pequena que ele sobrevivia de emprestar seu estádio, o Morumbi, para os times grandes: Santos, Corinthians e Palmeiras, ou para as equipes dos outros Estados. Ficava com dez por cento da bilheteria. Tanto que havia uma brincadeira na época que dizia que o São Paulo era que nem garçom. Vivia dos dez por cento. Só que este timinho de várzea ganhou campeonatos importantes e o Corinthians, que lotava estádio, que abafava a voz dos são-paulinos, ganhou muito pouco pelo seu tamanho. Deu no que deu. O São Paulo tem hoje uma big torcida. Por isto, não se surpreendam quando digo, o próximo time a brilhar será o grande Juventus (não aqueles pernas-de-pau de Turim, mas o da Mooca). Vai triunfar, podem esperar, porque se até um time como o São Paulo conseguiu, nós vamos chegar lá! Tiramos a diferença dos poucos títulos que o tricolor paulista tem sobre nós e deixamos todo mundo comendo poeira.
O Palmeiras não se saiu mal. Seus torcedores não tem do que reclamar em termos de títulos, apesar de ser torcida bem menor que a do time do Corinthians. Por isso, não podem ser considerados muito fiéis também. Depois, todo mundo sabe que os palmeirenses não precisam ganhar campeonatos. Só precisam ganhar do Corinthians. Afirmo-lhes, meus caros leitores, que, além do Juventus, ninguém parou a equipe do Parque São Jorge como o Palmeiras. Confesse, amigo corintiano. Deve doer perder um jogo para os palmeirenses, hein, ah, ah, ah! Aqueles chatos que, na segunda-feira, à primeira hora da manhã, chegam ao seu cangote e sussurram, “assistiu o jogo onti?”
Bom, prezado amigo fiel. Se quiser perder um pouco sua fidelidade, para ganhar em alegrias, se quiser estourar os rojões que emboloram no seu armário, as portas do Clube Atlético Juventus estão abertas para você. Não se importe muito se os palmeirenses o chamarem de bandeirinha por trocar de time. Trocar para time pequeno é coisa de macho, fique tranqüilo.
Mas, por favor, entendam, caros leitores. Com estes argumentos irrefutáveis, longe de mim querer deslustrar a grande vitória do Corinthians em mais um título doméstico.

ROBERTO DA CONCINA

MANSARDA

Junho 1, 2009 at 6:22 pm | In 1 | Leave a Comment

Quis fazer do sótão uma mansarda, com móveis, com violão, com cheiro bom, com janela para a noite e mais a cobiçada privacidade. Mas não consegui parar de chorar ao me desfazer do entulho, as tranqueiras que enganavam a sensação de vazio. Tempos mais tarde, tive que admitir. Não dava para ter os dois, mansarda e entulho. Era preciso espaço vazio. Em desespero, joguei tudo fora. Ah, me senti oca, minha alma estava mortalmente seca! Os móveis que encomendei não chegavam nem o televisor nem o violão nem nada. Os produtos de limpeza tinham acabado. Não havia janela. Pela primeira vez rezei. Não foi uma prece humilde, mas blasfema. De quem não pede, manda, não espera, urge. Abraçando as pernas no chão, eu sapateava um flamenco. Olhei para as estrelas. A platéia fumava indiferente à minha desolação. Porém, houve uma noite fria em que Deus estava na assistência e eu senti. Estava entulhada e não sentia.
Um dia, tocam a campainha, são as encomendas. Não respondo, deixo-os partir. Pela Vila Madalena que amo, rodopio em postes de luz e pulo oceanos como poças d’água.

Cristina

Aqui me despeço

Dezembro 26, 2008 at 12:23 pm | In 1 | Leave a Comment

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Infelizmente, não poderei dar continuidade ao presente blog, porque me vejo instado a outras atividades artísticas. Termino meu nono romance, que se encontra bem adiantado, para, se tudo correr bem, publicá-lo no ano que vem. Ao mesmo tempo, preciso dar acabamento ao meu primeiro livro de ensaio que passa por análise de meu editor. Caso ele decida publicá-lo, o livro tem que estar em dia. Além disso, um ator profissional, que ora atua em obra dramatúrgica de minha autoria, pediu-me uma segunda peça, para a qual precisarei de tempo a fim de concebê-la. Por último, acabo de receber solicitação de um diretor de cinema e tevê para, juntos, criarmos o roteiro de um de meus romances, a fim de levá-lo à produção áudio-visual. Ufa! Deste modo, eu não conseguiria manter esta página eletrônica com a qualidade que merecem meus compreensivos leitores.

Tive uma experiência muito fruitiva com este blog nestes cinco meses e me surpreendi em receber cinco mil visitas, sobretudo porque elas aumentavam mês a mês substancialmente. De qualquer modo, a experiência, como disse, foi muito bacana e espero um dia contar com o público para manter este contato tão interessante, quanto imediato e enriquecedor.

De todo o meu coração, gostaria de expressar-lhes minha profunda gratidão pelas visitas a este modesto blog, prestigiando as narrativas de minhas personagens, as quais igualmente agradecem (com exceção do Roberto da Concina que se sente preterido).

 

Muito obrigado a todos e um caloroso abraço de

 

Mauro Judice  

Cantiga de amigo

Novembro 30, 2008 at 10:40 pm | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

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Quando eu te tiver deixado

E te indagar: podemos, ao menos

Ser amigos

E me devolveres, não

Podemos mais, ser amigos.

Te tomarei contra meu peito

E me direi teu, amante eterno

Então, me afirmarás

Se deveras ama, vai-te embora

Porque não podes ficar

Sem poder ir

 

Thiago DaClô

 

(postado no www.blonicas.zip.net )

Olhando da Janela

Novembro 27, 2008 at 12:49 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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Saí à janela. Ou parte de meu corpo saiu. Vi um movimento na rua à volta da árvore, plantada há décadas, bem em frente ao meu prédio. Uma árvore pejada de galhos e folhas, cujo nome não sei. Funcionários da prefeitura a derrubavam, porque estava condenada e oferecia risco de cair. Era difícil de acreditar que, tão pulsante de verde, estivesse morta. Mas muita coisa parece viva, e está morta. A dois metros da roda crescente de curiosos, alguns homens conversavam. Discutiam, indiferentes à perícia dos funcionários, pois eram homens maduros como a árvore. Discutiam sobre o mundo. Como costuma ocorrer, quando o tema debatido é a evolução da raça humana, irrompeu acirrada polêmica no grupo, competindo com a serra elétrica. Uns deles nem admitiam ouvir que o mundo estivesse melhorando. Outros, ao contrário, diziam que estava melhor, a olhos vistos, em comparação a tempos passados. Certas vezes, precisavam interromper a discussão. A serra elétrica era mais enfática. Passavam-na de cima para baixo. Nos galhos maiores, depois nas partes superiores do tronco e, enfim, na base do tronco. Os pedaços caíam com minhas lembranças. Moleques nela dependurados, casais atrás, se amando na madrugada, cães nela amarrados, pessoas às suas sombras estagiando em meio à caminhada., meu primeiro beijo antes de entrar em casa. Os homens não chegavam a um acordo. Os argumentos de lado a lado eram contundentes. Os pessimistas apontavam para as guerras infindáveis, as catástrofes climáticas provocadas pela interferência danosa do homem na natureza, o contingente de miseráveis largados à própria sorte em todo o planeta, o advento de novas doenças incuráveis, os crimes hediondos em profusão… Aos poucos, todos fomos vendo um vazio crescer atrás da árvore depenada. Só nestes momentos nos damos conta do quanto a natureza é frondosamente refrescante do homem. Os otimistas afirmavam que todas as desgraças do mundo moderno ainda eram menos incidente ao que ocorria há um século, quem dirá séculos… A rua estava suja de galhos e folhas. Não restava nada da árvore, senão um toco de tronco. Todos foram embora e a solidão da rua ficou ainda mais espessa. Sobrou uma moça, como sobrou o concreto para todo lado. Hesitante, mas decidida, pediu aos funcionários da prefeitura para arrancarem o toco.

        - Para quê? – perguntou um deles, entrando no caminhão, quase fechando a porta.

        - Pra deixar espaço pra outro oiti.

 

Cecília D’Ávila

 

(postado no www.digestivocultural.com )

Vanguarda sem dentes

Novembro 23, 2008 at 6:31 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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Mas, convenhamos, meus caros filósofos da modernidade, está difícil achar uma vanguarda depois do “tudo pode” e do “nada é proibido” que grassam nas correntes de idéias há décadas. Mal se pode distinguir romance de conto ou de poesia, com fins de estudo, de se compreender a literatura, de mapeá-la para melhor assimilá-la, que já logo aparece indivíduo a vociferar o alcance ilimitado de uma obra de arte, que não admite ser denominada, que qualquer denominação é elemento cerceador, pois toda a expressão humana pode ser tudo, dependendo da perspectiva sob a qual se a aprecie e que, enfim, tudo pode ser tudo. A ciência não consegue aferir o limiar entre matéria morta e viva e, no entanto, não cessa de criar classificações para o avanço do conhecimento, agregando conceitos que nunca são estanques, são reativos. E em filosofia e arte? Qual vai ser a linha contestatória, qual vai ser a reivindicação se tudo pode, vez que ninguém reivindica algo que se encontra plenamente acessível? Qual vai ser a dialética, se não há mais antítese? Repararam que não temos Escola Literária ou Movimento de Cinema e Teatro desde muito? Como poderia, se a simples menção de um círculo em se agrupar em torno de uma idéia vira objeto de repúdio das classes pensantes, porque, para a comunhão de princípios, é necessário escolher certos pensamentos e preterir outros, o que é preconceito, reducionismo ou mediocridade analítica?  Talvez, a única contestação restante seja reivindicar limites, delimitações, restrições para a arte e para a filosofia. Se for o caso, vai acontecer algo sem precedentes, uma vanguarda que não venha quebrar parâmetros estabelecidos, mas pedir para se reconstruírem os antigos. Os vovôs vão sair às ruas, gritando, manifestando, provocando os inânimes jovens, de quem roubaram toda a possibilidade de rebeldia. Sim, porque a juventude vive um marasmo de dar dó. Tudo o que eles querem contestar, já foi contestado, tudo o que querem destruir já foi destruído. A moçada fica sem saber o que fazer, nada para criticar, nenhuma idéia demolidora que já não foi criada, ou todas são criadas hora após hora, o que produz semelhante efeito. De platitude. Quando eles pensam que formam uma tribo inovadora, estilizada, sui generis, deparam-se com outras dezenas de rodas com idéias igualmente revolucionárias, de pontuda iconoclastia. Por isso, as drogas estão na ordem do dia. Fumam ou cheiram, para saírem deste mundo sem graça. Talvez, um delírio mais criativo os leve para algum lugar onde reste um grupo reacionário, limitado e, ainda por cima, satisfeito com as próprias idéias.

 

Binho

 

(postado no www.copadeliteratura.com )

Mente sã em corpo são

Novembro 17, 2008 at 8:11 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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Na velha Inglaterra, uma garotinha se recusa a fazer uma operação de altíssimo risco no coração. Prefere passar seus últimos dias ao lado da família e morrer naturalmente. O negócio virou uma polêmica dos diabos, porque algumas pessoas acham que um paciente tem o direito de recusar tratamento e outras acreditam que isto abre precedentes para justificar a eutanásia em casos diversos. Para mim, depende do estado em que se encontra o serviço médico de cada país. Em alguns deles, que não quero dizer quais somos, o sujeito comete eutanásia se faz o tratamento. O fato é que a menina não quer arriscar. Até porque está bem acompanhada no sentimento de pouca fé, pois os médicos também dão pouquíssima esperança. Parece que a confiança nos recursos da medicina não anda muito em alta ultimamente, não? E não venham me dizer que, a cada ano, o homem vive mais, prova irrefutável dos avanços do conhecimento médico. Com efeito, não nego, o homem vive mais. Mas e depois? Dietas, nutricionismo, progressos na ciência genética, comida balanceada, célula tronco, ginástica localizada e vivemos um número maior de anos, munidos de corpos sarados e fortes. Porém, chegamos à velhice em companhia de dois velhos companheiros, um inglês, outro alemão. Parkinson e Alzheimer. Não cuidamos demais do corpo e de menos da cabeça? Então, a coisa se complica. Que adianta acreditar na medicina, se ela só pode cuidar da parte física? Como fica este descompasso, o corpo vai para frente e a cabeça fica para trás…? Por estas e outras, defendo bravamente o equilíbrio entre corpo e mente. Nem que para isto eu faça regulares esforços para não deixar o corpo ir adiantado demais em relação à cabeça. Quando sinto o perigo, ministro a mim mesmo um pouco de vida sedentária, não modero os vícios e passo uma ou duas semanas de esbórnia para equilibrar as coisas. É preciso dedicação para manter o corpo e a mente em harmonia.

 

Exúbero

 

(postado no www.bbc.co.uk/portuguese )

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