Madrasta
Junho 26, 2008 at 3:24 pm | In Crônicas Diárias | Leave a CommentSei que o tema é recorrente, batido. Ninguém mais pára de falar a respeito. Todos os canais de televisão não cessam de reprisar as cenas surradas. Comentaristas esmiúçam os mínimos detalhes do crime sórdido.
Pai é acusado de matar a filha de seis anos, mancomunado com a esposa, madrasta da menina.
Mas, talvez, seja exatamente este o ponto que torna o tema intrigante, de discussão inesgotável. O fato de acontecer todo o dia, e ser absolutamente anormal. O fato de que o anormal acontece normalmente. Mas se é anormal, por que acontece de costume na vida das pessoas? Se é norma é porque não é exceção. Tudo pode ser? Será que nós não somos normais e o normal não existe? Ou será que nos intriga isto, a circunstância de não sermos normais? Nos consideramos pessoas normais. E, no entanto, nos mantemos fascinados pelo caso do presumido assassinato cometido por um pai, que, a rigor, deveria ser incidente isolado. Deveria ser tratado por especialistas, terapeutas experientes em doenças mentais. Como o caso de um louco varrido que mata alguém. Não vira notícia. Mas o crime cometido no seio de uma família tida por normal nos assusta. (Aqui, seio tem uma conotação de lugar comum). Não entendo. Para mim, o crime que ora instiga a nação deveria ter o mesmo tratamento do louco varrido. Deveria permanecer um ou dois dias nas páginas do noticiário e, depois, os jornais explorariam outros assuntos. Outros dramas. Dramas…? Por que seriam dramas? Será que as tragédias alheias nos fazem sentir melhor? Desejamos ver desgraças ao redor do mundo que se sucedem a outras… Para nos sentirmos normais? Há um quê de anormalidade na normalidade, não? Por outro lado, talvez a questão esteja na circunstância de que, na verdade, só é normal quem é anormal. Imaginem alguém sem erros notáveis a conviver conosco. Acho que o último que pisou a Terra nessa condição, nós o martirizamos no Gólgota. Com certeza, iríamos apontar na rua o indivíduo sem falhas notáveis e dizer: é um excepcional. E iríamos ceder o assento para ele no banco do coletivo. E iríamos perguntar se não precisa de ajuda.
Normalidade…
Em recente declaração, a madrasta disse que o marido jamais tomaria uma atitude desse modo monstruosa. “Ninguém pode condená-lo de nada”. Condená-lo? Ou condenar-nos? O pai matou sozinho?
Acompanhei a crescente satisfação das pessoas quando, mais e mais, a polícia descobria pistas contra o pai e a madrasta.
O pai matou sozinho?
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