Mais difícil amar que ser amado

Agosto 31, 2008 at 11:33 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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Reparei que, para amar você, eu deveria ficar distante. Porque, quando estou próximo, me vê qual se eu fosse um homem dependente. E, pois, não acredita ao fim que a amo. Estou ao seu lado, pensa, porque preciso de companhia, caso me falte a mamãe. Assim raciocina, você e todas as mulheres, que eu não sou capaz de viver só, não sou capaz de simplesmente amar. Ora, se fico apenas com alguém por dependência, por que me quer? Aqui, se trai, mostra que aceita um homem que está ao seu lado movido por carência. Se aceita isto, prova o cálculo: objetiva casar e ter filhos. Minto? Entenda, Deus, meu dilema! A partir do instante em que me der qualquer coisa, sei que pensará que estou ao seu lado por interesse. Sei que não acreditará em meu amor puro. Porque tem o coração ferido. Feriram você e não crê mais nele – não, não num homem, eu digo nele, no amor. Acha sempre uma razão, ainda que não confesse, para alguém estar próximo de você. Seu pai não a amou nem sua mãe e, portanto, é difícil acreditar que tal exista, o sentimento, se falhou quem se presume deveria amá-la sobre todas as pessoas. Não crê no amor e digo mais. Prefere não acreditar, porque, crendo, você terá que se ver com a maneira como tem amado os outros. Então, a única chance que tenho para você me amar, um dia, é refutar a idéia de ficarmos juntos. Ainda que me doa, constato com o sangrar de coração: se a amo, devo me distanciar. Se fico com você, mostro fraco o meu amor e, todavia, grande minha paixão, este fogo de artifício, esta ilusão que cega. Ainda que meu corpo clame pelo seu, sei que nunca me amará se estiverem juntos, seu corpo e o meu. Pois a distância de nossas almas é oposta de nossas peles e eu não quero menos que beijar seus dentes por sorrisos incontidos, ao invés de bicar o buço de sua indiferença. Se existe luta aqui, não é de duas idéias, de dois princípios, mas de dois sentimentos, ou fontes: um da carne, outro da alma. Não me salva a hesitação nem tenho a desculpa da dúvida. Sei o que fazer, sou convicto de que não pode ver quem sou, enquanto eu estiver marido. Do mesmo modo, estou certo de que me amará tanto mais distante ficarmos. Loucura da realidade! Serei o herói sozinho ou o esposo solitário? Porque levantem quantas vozes forem a bradar sobre o amor que só pode se realizar em conjunção. Que eu lhes responderei, Não. Amado por um caroço de amor imortal que em você reside, melhor que a carne e o viço de um instante. Serei sozinho comigo, a ser consigo sozinhos, em frente a uma tela de tevê, esquecido à sua retaguarda nas compras, ou convidando amigos para que eu possa ouvi-la falar. Antes viver com você a eternidade que morrer até que morte nos separe. Nunca. Distante – como chama o mundo quando dois não dividem um teto – eu prefiro estar distante. Ao seu lado, sem o esbarrar diário, anelados, sem anéis nos dedos e, mesmo prestes a perder o seu abraço, prefiro assim, saber que me admira, me respeita, a mim deveras. Ama.

 

Binho 

Reserva Raposa Serra do Sol

Agosto 28, 2008 at 3:16 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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Criou-se o impasse: se os agricultores deveriam sair da reserva demarcada que era rigorosamente restrita aos índios. Chegou-se à decisão judicial há quase dois anos que obrigou os agricultores a saírem da reserva demarcada que é rigorosamente restrita aos índios. Os agricultores têm resistido em deixar o local, usando de violência contra as tribos indígenas há quase dois anos e irão sofrer os rigores da lei.

 

Mendes Acorsi

 

(postado no www.ultimosegundo.ig.com.br )

O encanto da cidade são eus

Agosto 27, 2008 at 3:28 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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O que me encanta em São Paulo, sobretudo, é a capacidade dos cidadãos falarem e receberem críticas de sua cidade com isenção. Certa vez, no dia do aniversário da cidade, uma revista paulistana publicou comentários depreciativos de três colunistas, aliás, bem cultos, dois deles cariocas. Eles acabaram com a cidade. Em sua crítica, não sobrou pedra sobre pedra da selva de pedra paulista. Tive a curiosidade de ler o periódico no mês seguinte e não ouve sequer uma carta publicada de paulistano em defesa da metrópole. Dizer que o paulista da capital não ama a urbe em que reside, seria argumento irrisório. Imaginem o oposto, imaginem paulistanos desancando outras cidades, no dia do aniversário delas, e irão compreender a mentalidade dos moradores de São Paulo. Talvez, aqui, tateamos o misterioso motivo que torna encantadora a paulicéia desvairada. Há um tácito respeito por ela. Seus prédios, fincados na crista dos morros, e na terra, fixam um olhar horizonte e estrangeiro, que inspira certa dignidade sobranceira e estóica de acolher tanta gente. Povos do mundo inteiro que são a argamassa e o edifício da cidade, e amam sem apego.  

 

Binho

 

(postado no www.digestivocultural.com )

O canto da sereia

Agosto 27, 2008 at 3:25 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

  

No mercado fonográfico brasileiro, só tem aparecido cantora bonita. Achava que as cordas vocais determinavam uma cantora. Ingenuidade minha, porque as beldades sempre deixaram os homens surdos, embora não parem de assobiar como idiotas. Elas mal precisam cantar, para eles abrirem a boca e fazerem coro. Se as divas dão uma viradinha no palco, eles juntam as mãos, encantados como se elas fossem dervixes girantes. Se tocam um pífano, eles o olham como um órgão de mil foles. Se dão uma reboladinha, então, eles dançam funk com pas-de-deux.  Temos que reconhecer que, apenas num show, as beldades tiram mais musicalidade dos homens que um ano de conservatório em Viena.

 

Cecília D’Ávila

 

(postado no www.interney.net/blogs/gravataimerengue )

Quando morrem os heróis III

Agosto 24, 2008 at 10:48 pm | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

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Outra noite nos acolhe. O dia se vai há pouco. Recostemos a cabeça nestes feixes de palha. Olhemos para a noite salpicada de estrelas e nos permitamos sonhar, enquanto me deixam continuar o que dizia, sem distrair a mente aos estalidos da fogueira que nos aquece.

O desejo de efabulação, ou aquele impulso que temos de ouvir histórias de grandes homens, atravessam os tempos, são ancestrais e eu posso lhes assegurar como poucos sobre este ponto. Em minha tribo perdida na Amazônia, era comum o recolhimento à volta da fogueira, para que se ouvissem casos e lendas. Hoje, a luz do fogo foi trocada pela luz da fotografia, a luz que queima uma película e se transforma em animação, em cinema. As antigas vozes dos contadores (que ainda existem no mundo moderno) foram substituídas pelas narrativas impressas nas linhas dos livros ou nos enredos pirografados em imagens.

Todo o desdouro aos valores dos heróis modernos, assim como toda a diversidade da tecnologia atual, não mudaram o desejo de ouvirmos histórias, como há 10 mil anos, que referem a acontecimentos incomuns, de pessoas incomuns. Por quê? Somos animados por necessidade visceral e duradoura a ouvirmos histórias de façanhas sobre-humanas. Mas por quê? Afinal de contas, também se enriquece a alma o conhecimento realista do ser, em que se elaboram personagens mais desenvolvidas, mais ricas, cujas fraquezas são exploradas, levando-nos ao maior entendimento de nossos limites, o que nos oferece informações valiosas para dominá-los. Ora, se isto é verdade, era de se supor que o homem fosse deixando de lado, cada vez mais, a construção dual e simplista da polarização bem-mal. No entanto, o espírito ainda continua a desejar os grandes feitos, feitos por homens grandes. A resposta para esse fenômeno está no fato de existir no íntimo de cada um de nós discreto impulso que exerce irresistível atração pelo desejo de crescer. E crescer até o infinito. Por que nós, eu, você, eles, todos nós temos um herói interior, sim, isto mesmo. Um herói que habita em nosso núcleo essencial, dissimulado, a espreita do momento em que lhe daremos a chance de vir para fora, de irromper num dia memorável a casca que pouco a pouco descascamos. Mas, enquanto está quieto, ele espia. Às vezes, se envergonha de nós e rebaixa os olhos, deixando-os cair nos pés, que andarão. Às vezes, se orgulha, pula de alegria, pula, sonha em dia de glória. Às vezes, chora e chega mesmo a pensar que nunca o iremos libertar. Espreita, feito irrequieto demônio, um daimon, do interior da lâmpada maravilhosa. Aplaude os heróis escritos nas histórias que lemos, vibra, grita, eis você, ele quer dizer, e diz. Por momentos, escutamo-lo, por vezes, não. Certas vezes, queremos ver as facetas do mal no grande homem, para que nos sintamos melhor, menos diminuídos. Outras feitas, queremos ver o homem em toda sua magnificência e triunfo virtuoso, antevendo-nos, antegozando o dia incriado. Ele, nosso herói, quase nos tira da cadeira, nos empurra para o alto do assento da platéia. Eis-me-te, ele quer dizer, apontando para o homem que perdeu a vida e não os princípios no enredo pueril. Sou você ali naquela tela, página, palco, som. Sim, som. Também nas músicas se inscreve a atitude heróica, como na melodia triunfal das sinfonias. E também através dela, nosso herói nos lembra convicto o dia a que estamos desde sempre destinados. Não perde uma chance de nos avisar, até mesmo numa parada militar. Os tambores, as caixas, os metais, não remetem a outra coisa. O som jamais serviu para qualquer espécie de glorificação belicosa, como pensamos. Aqueles soldados que voltam vitoriosos para casa, orgulhosos de suas mortes, não venceram ninguém. Não são mais que soldadinhos de chumbo alquebrados, brinquedos de criança, iludidos de sua vitória. A alegria que sentem ao ouvir os clarins é antes o prelúdio tocado em seu íntimo pela vitória definitiva que, através de um silêncio retumbante, vai se impor em cada um da soldadesca. Nem banda nem fanfarra, pompa ou circunstância, nem gritos de euforia, o que de fato seus corações vêem e escutam é o que aponta e canta o herói que os consagra.

 

Djogai

No entanto

Agosto 23, 2008 at 10:32 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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No entanto, um homem digno e maduro passa por bonzinho. E não se incomoda minimamente com isto.

 

Binho   

Seja bonzinho e obedeça a mamãe

Agosto 23, 2008 at 10:28 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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É compreensível que se tenha tão pouca estima pelos bonzinhos. Afinal, são raros os que mostram generosidade por outro motivo que não o ego, o desejo de ser amado, de ser admirado, de causar impressão. O bom mocismo de fato não cola. Flagramos os motivos de auto promoção em quem se diz preocupado com o alheio na hora em que ele não recebe sua recompensa, a reputação social, o elogio comunitário ou as menções de grandeza espiritual. Aí, todo seu espírito benevolente se desvanece e ele mostra realmente quem é, um egoísta como outro qualquer. No mais das vezes, foram mal amados na infância, sobretudo pela mãe, e passam a vida toda procurando a mamãe malvada nas mulheres, atrás de poses de grandeza e de renúncia. Munem-se de armas sofisticadas, como a religião. As crenças caem com perfeição ao papel que pretendem cumprir neste sentido. Nada como as palavras sagradas para referendar seus gestos de renúncia e altruísmo. Ah, como é enganosa, como é ludibrilhante a postura de mostrar-se evoluído. Também aí nos deparamos com outra competitividade: quem é o mais evoluído do grupo, da família, da repartição? E se institui o campeonato da felicidade. Enquanto vemos indivíduos rudes simplesmente imporem-se por força física, vemos pessoas sofisticadas querendo se impor pela bondade ou humanismo ou fraternidade. Mas dê-lhes, aos bonzinhos, um desprezo bem dado, ignorem seu ato benfazejo e verá até onde vai sua renúncia. Eles cultuam com zelo a imagem de sensíveis. Absorvem cultura em nome do refinamento da alma, mas contradiga-os em público e verá com que refinamento irão tratá-lo. Assistimos a pessoas rebeldes, que enaltecem as más criações e, até, as maldades, e nos pegamos a aplaudi-las, surpreendidos conosco mesmos!! Ora, não somos do Bem? Então, porque aplaudimos pessoas que exaltam o mal comportamento ou mandam às favas as regras de conduta? Porque, ao fim de tudo, aplaudimos sua sinceridade. Nossas almas estão cansadas de tanta impostura. Eis.

 

Binho

 

(postado no www.blonicas.zip.net )

 

A distância

Agosto 23, 2008 at 2:52 am | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

Eu dizia que não dava a mínima para a Olimpíada. Não aceitava que um país deste tamanho, com uma das populações mais numerosas do planeta, com recursos naturais infinitos, pudesse se contentar com uma ou duas medalhas de ouro. Nem com dez nem com cinqüenta. Não assisti a nenhum jogo e mal acompanhei pelos noticiários os resultados. Irrita-me este povo que aceita tão pouco e não é de meu temperamento torcer por migalhas, eu me dizia, inconformado. Nego-me a dar audiência a resultado assim constrangedor. Seria prova de inferioridade, atitude de alguém com muito pouca estima de si próprio. Além do mais, me revestia de meus cultuados conceitos anti nacionalistas. O mundo é uma coisa só, somos todos irmãos, estamos no mesmo barco. Porém, fico sabendo da vitória da campeã em salto à distância. Ouro. Mantenho firme minhas convicções ao longo do dia – ainda que não resistisse em dar uma espiadinha nas páginas da internet (que estava ligada de qualquer forma) sobre a saltadora. Chegada a noite, contudo, não me segurei e fui assistir à matéria sobre o feito. Ah, pensei, lá vão os jornais explorar o fato até a exaustão, repassar até cansar esta magra vitória e o povo irá assistir, como mendigos que agradecem um pedaço de pão. Ela apareceu concentrada, chamando a atenção por sua feminilidade e força atléticas. Deu um grito, antes de partir para o salto. Correu, era uma lutadora que depositava toda sua vida naquele momento. Seu pulo foi espetacular e deixou as outras concorrentes preocupadas. O objetivo do mundo agora era bater a marca de nossa brasileira. E a tensão acabou por fazer as competidoras queimarem vários pulos, saltando fora da faixa de largada. A emoção começava a trair-me as convicções, enquanto a saltadora exultava ao grito da grande multidão. Eu restava de pé na sala, pois não tinha intenção de demorar-me. Senti-me aliviado por não haver ninguém ali, no momento, porque meus olhos começavam a arder. “É o jogo?” perguntou meu pai, passando atrás de mim, e eu apenas respondi com um “não, é a saltadora”, notando minha voz alterada. Ela venceu, a imagem de seu salto era repetido por vários ângulos. Eu já havia visto, mas continuava na sala. Agora, falava ao telefone com seus parentes, com a filhinha, e se estabelecia a euforia. A narração do repórter acompanhava o entusiasmo das cenas. Não rendido de todo, vi meu sentimento patriótico aflorar  - como, eu patriota, coisa mais ridícula?? – enquanto a bela atleta pulava de alegria no podium, ao som do Hino Nacional. Deus, como o Hino é lindo, ela disse, e eu concordo, eu concordo! Naquele instante, as convicções davam inteiramente lugar ao meu coração. Chorei. As lágrimas caíam de meus olhos diante da repetição das cenas da atleta a correr com a bandeira nacional. Uma única medalha num país tão grande. Mas valeu, demos todos um salto à distância. Que Deus te abençoe Brasil!

 

Mauro Judice

 

(postado no www.ultimosegundo.ig.com.br )

Crasse Média Curta

Agosto 21, 2008 at 11:47 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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Sabe como é. As pesquisas às vezes são um bocado imprecisas para determinar em que extrato social pertence o cidadão. Mas tem uma definição precisa para a gente não ficar na dúvida: a classe média é aquela que está um pouco acima da classe baixa e muito abaixo da classe alta. Agora, segundo as últimas pesquisas sobre o grau de cultura da classe média, podemos dar uma definição ainda mais rigorosa. A classe média é aquela que tem cultura um pouco acima da classe baixa e muitíssimo abaixo da classe culta.

 

Roberto da Concina

 

(postado no www.digestivocultural.com )

A construção do humano

Agosto 20, 2008 at 11:36 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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A tecnologia tem que servir para o homem avançar como homem e não como andróide. A técnica sem sensibilidade desconcentra, porque nos faz acreditar em evolução ilusória. Exterior. E apocalíptica. Conforme mostra a História, o avanço tecnológico, sem a evolução pessoal, resulta no avanço da potencialidade destrutiva do planeta.  Tecnologia – sensibilidade = fim. É preciso que a gente não se ofusque com a tecnologia. Pensar em equações é importante, se não nos dispersar da construção do humano.

 

Binho

 

(postado no www.cronopios.com.br )

 

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