Não definais
Setembro 28, 2008 at 3:52 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
Engraçado o tanto que se fala em terminar uma relação que não se define. Homens e, sobretudo, mulheres reclamam de se relacionarem com parceiros durante anos, irem e virem, com encontros e desencontros, após momentos de intensa troca de afetividade, seguidos de separações sem motivos aparentes e nunca chegarem a ficar em definitivo – lê-se, casarem-se. Eu me pergunto a razão desta necessidade. Será que uma relação indefinida é algo errado? Se o casal se vê de vez em quando, isto por si é um problema? O critério “indefinido” não seria apenas produto de criação na cabeça das pessoas, já que a indefinição por longo período é definição? Enquanto não chega o definitivo, por que não curtir o passageiro? Dá a impressão de que algumas pessoas se negam a desfrutar o passageiro, porque o definitivo não surge. Ou o mundo se enquadra aos sonhos, ou a recusa de se enquadrar ao mundo? Fico me perguntando se as relações definitivas não são feitas de supostos momentos passageiros. Ou se o olhar passageiro não torna tudo definitivo. Ou, ainda, se definitivamente todas as coisas são e só podem ser transitórias. E às vezes, me ingago, digo, me indago, se os momentos passageiros não são definitivos pela pressa de ser definitivos. Não têm as mulheres, mais que os homens, obsessão pelo casamento, com direito a casa, filhos, netos e eletrodomésticos, e isto, além de impedi-las de gozar o presente, não faz os homens se sentirem pressionados, a ponto de abortarem um compromisso de razoável potencial de sucesso? Um relacionamento tido por sólido – o matrimônio – será definitivo? Será que o excesso de afirmações não nos rouba as definições? E a busca de definições, o viver?
Cristina
(postado no www.interney.net/blogs/gravataimerengue )
Do que trata sob a personalidade
Setembro 25, 2008 at 6:48 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
Verdade, eu babava quanto a via assim tão convicta e definitiva em resolver problemas e realmente conseguia me deixar inseguro se me olhava com um rasante de impaciência, caso eu errasse em qualquer amenidade. Não nego que tentei provar-lhe muitas vezes que podia ser o homem, ou melhor, o macho sem pestanejar, o solucionador viril de todos os problemas, o peão de boiadeiro culto e endinheirado. Sim, querida, conseguiu me fazer pensar-me um sujeito estragado pelas bem nascidas oportunidades, tantas foram as vezes que me dominou pelo campo de força de sua personalidade. Mas meu espírito reagiu algumas vezes, e me insurgi contra o império de seus sentidos. Ainda que devoto, era um deísta, acreditava na deusa, mas não lhe fazia a corte com oferendas. E você me olhou de cima e disse: quem pensa que é? E indagou afirmativamente: não diz que é cristão e que crê na humildade sobre todas as coisas, então por que desta prepotência? Com efeito, me embaraçava com o vigor de suas posições e me deixava ainda mais inseguro sobre idéias onde antes me assentava. A educação era frescura, a delicadeza falta de firmeza, a cultura não valia como questionamento, só como afirmação. Social. A palavra de ordem era: o ser é se ele concretiza. Acabei por me esquecer de quem eu era. E este vácuo de esquecimento foi de imediato preenchido pelo que você me fazia todo o tempo me lembrar. Você. Você. E tanto me acuou que eu tive que crescer, saltei, cresci, não o crescer de fato, mas à sua vista. E me lembrei do que eu era. Ou melhor, me lembrei do que a vida havia me oferecido, me presenteado, me agraciado, as melhores oportunidades, uma grande formação pessoal e intelectual. E eu traía a oferenda. A vida quis de mim um homem especial. E eu a renegava pela força da incompreensão alheia. Agora, tudo voltava a ficar claro: eu traía minha história. E os questionamentos tão criticados me salvaram. Onde está este homem que você procura, passei a indagar-lhe em pensamento. Onde está este indivíduo que fala somente o necessário, sem resto, onde se encontra este caubói solitário, destemido e implacável, pouco suscetível à dor, de físico e de alma? Esta virilidade que, de tão macha, te fará acreditar que você é fêmea? Mostre-me um sujeito assim, que não seja nos filminhos de sua cabeça. Compreendi que seus sonhos eram poderosos, a ponto de abarcar mais que seu cérebro e seu mundo, mas outras mentes e outros sonhos. Suas certezas eram tão sólidas que impressionavam. Como também impressionaram as certezas dos déspotas. Não, querida. Às suas certezas irrefletidas, nascidas da irrazão, oponho as minhas, nascidas da hesitação. Ao teu mundo concreto, objeto com a força da essência. E à virilidade que almeja, mostro-me viril por meu amor.
Sei que agora, que a deixei, me olha de outro jeito. Sou mais homem, o mais viril dos homens, e um pouco mítico, um pouco místico, cuja matéria subjaz ao meu espírito. Místico aos teus olhos, bem entendido. Sou apenas um homem. Contudo, não me apraz alguém a quem eu tenha que me submeter ou, pior, sobrepujar.
Porque me lembrei de que são necessárias muitas incertezas para se construir uma única certeza. E que hoje, me orgulho destas certezas. Do mesmo modo que me orgulho das incertezas que me levaram a construí-las.
Binho
(postado no www.blonicas.zip.net )
La isla perdida
Setembro 25, 2008 at 6:28 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment.
Toda a vez que vou num destes barzinhos da Vila Madalena, cheios de intelectuais, fico feliz em ver que o país tem solução. Falta apenas vontade política. Fico feliz em ver que a relação homem x mulher está resolvida. Eles não chegam nelas. Fico feliz de ver que as classes sociais foram igualadas e os garçons são chamados pelo nome. Me alegra ver que as elites são culpadas de todos os problemas do mundo, e me acabo bebendo à saúde delas. Me encanta ver a impecável manifestação da democracia racial, sexual, social, corporal. Só não vale o regime. Me anima ver tudo esclarecido pelos chistes incompreensíveis, que matam os ouvintes de rir. Ah, uma pena furar esta atmosfera seleta, de homens destacados e singulares, indistintos na fumaça de cubanos, e voltar para a vida comum.
Roberto da Concina
(postado no www.digestivocultural.com )
A Viúva Negra
Setembro 22, 2008 at 4:15 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment.
- Você de novo usando os limites femininos para justificar suas compulsões fisiológicas, não? Seria mais sincero se vocês, homens, admitissem que a única coisa que desejam das mulheres é se deitar com elas.
- A única coisa que desejamos das mulheres é nos deitar com elas.
- E fala com esta desfaçatez toda, senhor Roberto da Concina?!
- Não digo que as mulheres são umas neuróticas? Se falamos é porque falamos, se não falamos é porque não falamos… Haja paciência pra gente agüentar vocês!
- Haja hormônio, quer dizer.
- O que não entendo, Cecília D’Ávila, é a razão de estar sempre ao meu lado, já que tem tantas reservas a meu respeito.
- Estava de passagem.
- É, mas basta eu abrir a boca para você aparecer. Eu falo demais ou você não sai do meu lado.
- Letra a.
- Faz todo o tipo de censuras sobre meu comportamento, mas se sente atraída por mim, esta a verdade.
- Presunçoso.
- Com homens compreensivos, vocês se entendem. Com homens que não se entendem, vocês se deitam. Não está aí uma prova acabada do esquisito masoquismo feminino?
- Não nego. Gostamos dos desequilibrados.
- Parecem Viúvas Negras, as aranhas, sabe?
- Claro que sei.
- Sabe? Então, admite que são parecidas com as Viúvas Negras?
- Não, bobo. Quis dizer que conheço a aranha Viúva Negra. E qual é a brilhante analogia agora que o filósofo da Mooca vai nos dar a honra de ouvir?
- As Viúvas Negras matam o macho após a cópula, entendeu? Parece ser um instinto da natureza, as fêmeas se atraírem por quem odeiam.
- Finalmente, Roberto, falou algo que preste. Nós deveríamos seguir o exemplo da Mãe Natureza e matar os homens que nos fazem sofrer.
- Aí, acabariam se casando com os compreensivos. Quer tragédia maior para uma mulher?
- Não sei por que perco meu tempo ouvindo tanta besteira, Deus!
- Ou talvez, a reação da Viúva Negra seja acima de tudo uma resposta à subjugação sofrida…
- Está viajando na idéia, ó filósofo dos bares.
- Olhe, me escute. É sério. Há algo de subjugação entre o macho e a fêmea por força da natureza.
- Que preconceito!
- Observe que as fêmeas esperam os machos se baterem para ficar com o vencedor. Portanto, elas devem se sentir atraídas pelo forte. Agem instintivamente para que sua prole seja mais forte também. Daí a ligação entre violência e virilidade.
- E?
- Claro que o macho que acabou de subjugar seu rival vai ter uma relação sexual de subjugação com a fêmea, pois, do contrário, ela não se sentiria atraída pelo vitorioso. Se ela se sente atraída pelo subjugador, deve se sentir pelo ato de subjugação.
- Ora, talvez a fêmea não tenha escolha. O macho vencedor a possui simplesmente.
- Mas você sabe, você sente que é mais que isto!
- Eeeh! Tá me estranhando? Já passei da encarnação de búfala!
- Mas sempre permanecem alguns componentes naturais, principalmente os mais instintivos, ou primitivos, como é o caso do sexo, ora essa! Vá, uma vezinha só, me conta, meu. As mulheres se atraem pelos dominadores.
- Tá. Se atraem. E aonde quer chegar?
- Seguindo o raciocínio, minha doce Cecília, podemos concluir que se forma um conflito íntimo no complicado coraçãozinho feminino.
- É? E qual seria?
- A atração física leva as mulheres a se relacionarem com os machos dominantes e viris, por quem são subjugadas. Como é natural, nós… quero dizer, eles tratam as mulheres de cima para baixo, com superioridade e, até, certo desprezo típico do dominador com relação ao dominado. Não estou falando apenas na cama, mas em todo o relacionamento entre o casal. Um dominador não é propriamente um sujeito igualitário, preocupado com o sentimento de quem subjugou, entende?
- E como.
- Só que, minha bela Cecília, quando o instinto sossega, resta o ressentimento das mulheres por se sentirem subjugadas e usadas. O orgulho ferido, consciente ou não, passa a se insinuar. Entende?
- E como!
- Estas duas forças, o desejo animal e o sentimento de auto estima estão sempre em conflito. E assim caminha a humanidade.
- Entendi. E você, macho viril e predador, faz a humanidade caminhar.
- Não estou falando de mim. Acho que me enquadro mais no tipo dos homens compreensivos.
- Ah, ah, ah, ah, ah!
- Bom, o fato de você ainda estar aqui, é um sinal de que eu não devo mesmo ser muito compreensivo.
- Roberto da Concina, um dia vou fazer com você o que fazem as Viúvas Negras, tenha certeza disso. Chega das suas teorias machistas de laboratório, vou embora! Tchau.
- Tudo bem. No seu caso, até vale a pena morrer saciado.
Roberto x Cecília
Liberté, fraternité
Setembro 21, 2008 at 2:23 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment.
Mulher é assim. Se a gente fala a verdade e diz que não gosta mais delas, somos grossos insensíveis que não respeitam a dor alheia. Se floreamos e inventamos alguma desculpa para despachá-las, somos covardes ou omissos. Por isso que brigo antes do envolvimento, movido inteiramente pelo espírito humanitário e para dar início à duradoura relação fraterna.
Roberto da Concina
(postado no www.interney.net/blogs/gravataimerenque )
Amor
Setembro 20, 2008 at 7:17 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment.
Eu com você, eu convulso
Eu sem você, eu sem pulso
Cristina
Política cultural + Cultura econômica
Setembro 18, 2008 at 11:00 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
O livro espiritualista é o gênero que mais vende há décadas por aqui e, somente agora, fez-se um filme espírita que – adivinhem – virou sucesso. Se você disser isto a qualquer produtor do mundo, ele vai achar que está brincando, irá chamá-lo de mentiroso, ou de mal informado. Detalhe: o filme foi produzido por um grupo de teatro, com parcos recursos e com pouca experiência em cinema. E não venham me dizer que os empresários da cultura precisam tomar menos cerveja no calçadão em companhia dos intelectuais. Nada contra a intenção de produzir filmes de arte ou, até, de obras de radical experimentalismo estético. Talvez seja mais fácil produzir um filme de vanguarda no Brasil que um filme com pulso comercial. É que a captação de dinheiro para filmes nacionais se dá por decisão de intelectuais nas repartições estatais da cultura. Não podemos culpar estes últimos. Não têm visão empresarial, não foram formados para isto. O problema é semelhante ao de várias editoras, naufragadas por terem deixado a avaliação e a escolha dos livros publicados por conta de pessoa com boa formação cultural que nada tinha de visão empresarial ou, um indivíduo de forte experiência empresarial que pouco entendia de cultura. Ou sem um e outro atributo. De modo que, no caso do mercado editorial, é preciso que a decisão caiba a escritores com vendagens expressivas, se o editor quer vender livros, bem entendido. Somente eles acumulam os elementos necessários para o sucesso editorial, operando a intersecção entre conhecimento cultural e apelo comercial de uma obra. O Brasil não pode seguir apenas políticas culturais, mas também orientar-se por cultura econômica. Acho que o cinema norte americano já provou que, para se fazer um filme de vanguarda ou autoral, é necessário concretizar a estrutura de produção para dez filmes de entretenimento.
Mendes Acorsi
(postado no www.ultimosegundo.ig.com.br )
Inteligência Inapta
Setembro 17, 2008 at 4:40 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment.
Se um escritor aclamado por pessoas inteligentes pinta a anormalidade em todos os cidadãos normais, não se pode concluir que ninguém é normal, mas que a inteligência é inapta a reconhecer o normal.
Binho
(postado no www.interney.net/blogs/gravataimerengue )
Olhar marejado
Setembro 16, 2008 at 11:38 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment.
Para se ter um olhar político, é preciso ter um olhar histórico. Para tanto, nada como a vista de um carioca. Antes de ir à sacada para o mar, encaminha-se à lavanderia e se enxerga o enrugar dos morros, onde se acompanha a lenta, mas constante evolução de seus habitantes. Só então, volta-se à sacada, pela cozinha, sentando-se em cadeira confortável, de modesto espaldar, de onde mira a bela paisagem marítima com expectativas menores.
Mendes Acorsi
(postado no www.digestivocultural.com )
Reação em cadeia
Setembro 15, 2008 at 6:10 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
Não preciso ter você
Para te amar
Muito pelo contrário
Se preciso
Provo que não te amo
Porque o amor
O amor de verdade
Está em não ter
Em não possuir
O amor nasceu para libertar
Para quebrar amarras
E, se me diz
Que nosso amor acabou
Ele nunca começou
Pois, se o amor liberta
Ele dá louco alvará de soltura
Que empolga
Que integra
Que extasia
Que delira
E faz com que o prisioneiro
Queira voltar à prisão
Apreensivo em ver
Uma vez mais o carcereiro
A pessoa que criou
O único cárcere
Onde quem está fora
Está preso
E, quem dentro
Livre
Libérrimo
Como deveriam ser
Todas as almas deste mundo
Rimadas nessa cadeia
Que faz viver o morrer
Moribundo
Que tira o homem da modorra
Da tristeza, da paixão
Verdadeira e única
Masmorra
Uma vez que o amor
É como a rima
Parece que prende
Mas refina
Parece que limita
Mas culmina
Pois quem ousaria opor
Que símbolos e cifras
Limitam o labor
E o efeito das músicas
Binho
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