Cedo não cedo

Outubro 31, 2008 at 11:53 am | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

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Os homens

Não são menos apaixonados

Não são menos emotivos

Nem menos insensíveis

Os homens são o que são

Indivíduos com seu tempo

De amar

Não amam como as mulheres

Senão, mulheres seriam

O que une os dois

É que são dois opostos

Pois pólos iguais não se atraem

No entanto, diferentes sendo

São iguais em sentimento

Mas divergem no tempo

Em que governa o coração  

O amor da mulher é apressado

O do homem é temeroso

O amor da mulher é sem barreiras

O do homem, corrida de obstáculos

Porque

A mulher é senhora do mundo

Íntimo

O homem, do mundo externo

A mulher está à vontade

Nas emoções

O homem, na razão

Quando um e outro

Entram em campo alheio

Sentem-se inseguros

Assim, mulheres, saibam de vez

Que nós somos inseguros

Caso entremos no seu reino

A intimidade

Nadamos na superfície do amor

Enquanto vocês, mergulhadoras

Tateamos cavernas

Enquanto vocês, espeleólogas

Nos assusta o mar

Enquanto vocês, escafandristas

Assim, lhes peço

Ó bibelôs de aço

Dêem-nos mais tempo

Por que fazem como os ursos

Que, se abrem um abraço

Afugentam quem amam

Esperem um pouco

Para nos ofertar seu corpo

Ainda que urremos em pedir

Pois cada homem é dois

Um que ama e outro que deita

Até o dia em que amamos

E finalmente nos tornamos

Um

O que ama em nós, comanda

E ergue o que deita

Esperem um pouco

Ó musas tardias

Para que conheçamos

Suas almas

Antes do corpo

Mesmo se mentirmos

Que as amamos

E mentiremos

Fazendo votos de amor eterno

E faremos

Porque, na verdade

Mentimos primeiro para nós

Homens

Está aí nosso erro

Encantados por sua plástica

Julgamos que as amamos

Assim

Se nos cedem seu corpo

Antes da hora

Quebram-nos o encanto

Esperem, lhes suplico

Inda que imploremos

Não os dêem

Inda que rezemos

Sejam vocês

O que nós não podemos

Ser corpo e alma a um tempo

Porque nós homens somos

Corpo e depois

Alma

Sejam vocês

O que nós não podemos

 

Porque também nós

Queremos amar

 

Thiago da Clô

 

(postado no www.interney.net/blogs/gravataimerengue/ )

Manifesto

Outubro 30, 2008 at 5:39 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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Como escritor, manifesto-me desde já sobre as novas regras do hífen. Desobedecerei. Em meus próximos livros, impedirei que os revisores “arrumem” a colocação dos hífens. E conclamo meus colegas de ofício a fazerem o mesmo. Embora o referido sinal diacrítico represente parcela pequena em face da infinidade de regras gramaticais da língua portuguesa, eu e uma montanha de críticos somos acordes em considerar o hífen algo absolutamente desnecessário, a despeito de haver outras tantas dispensáveis na sintaxe pátria. Porém, é preciso eleger os mais grosseiros e limpá-los gradualmente, porque muitas justas reivindicações foram perdidas por se almejar mudança abrupta. Prefiro acreditar no discernimento das pessoas, que vem através do hábito de leitura, a ficar limitando suas escolhas, como se fossem crianças. Se o sujeito quer escrever super-homem que o faça. Se quiser, super homem, também. E, mesmo, superhomem. Se desejar autodidata ou auto-didata, tudo bem e, até, auto didata. Se quiser contrabaixo, ok, ou contra-baixo e contra baixo, está valendo. Extraconjugal, tudo bem, extra-conjugal e extra conjugal também. Supracitado, supra-citado ou supra citado (ou infra). Para mim, o uso do hífen deve ser uma escolha estilística. Quem deve definir como escrever é o bom senso e o bom gosto, que são apurados pela leitura. Ninguém cria norma para regrar a sensibilidade, mas todos sabem quando um sujeito escreve uma frase elegante, concisa ou apropriada. (Embora, conselhos, sejam bem vindos). Se quisermos ser indivíduos livres, precisamos exercitar a liberdade e pagar pelos erros inevitáveis do aprendizado. A liberdade sempre exige um preço. Escritores, uni-vos. A cada vez que ignoramos uma regrinha desnecessária, resgatamos mil excluídos da cultura.

 

(postado no www.digestivocultural.com )

Narrativa

Outubro 30, 2008 at 3:39 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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Para se criar um narrador/personagem cabotino, denunciando a mediocridade humana em cada atitude, raciocínio ou descrição dele, é preciso que a narrativa se sustente no ridículo que, se bem feito, revela a vida, se mal feito, revela a vida demais.

 

Exúbero

 

(postado no www.copadeliteratura.com )

Papai

Outubro 27, 2008 at 3:29 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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Eu cortava a grama de nossa casa como poucos homens fariam. Carreguei as caixas de frutas de nossa fazenda com mais força e em menos tempo que meu irmão Enéias. Fui a primeira a andar a cavalo e ninguém me superou nas duras cavalgadas. Por esse motivo, não quero que se preocupe, pai. Jamais me importei pelo senhor ter escolhido minha irmã como a princesa que nunca poderia pegar no pesado, enquanto nos punha a nós, o resto de seus filhos, na lida ao lado dos peões. Ao contrário, guardava um secreto orgulho pelo fato de o senhor, em momento algum de nossas vidas, demonstrar que via em mim a fragilidade feminina, ainda que me visse como mulher - isto é uma coisa que uma mulher sabe. Depois, sempre me senti tentada em pensar que este fosse o motivo do senhor se mostrar sempre distante de mim… Descanse em paz, não se cobre por nada que ficou no passado. É verdade, Enéias não conseguiu suportar o seu jeito durão, sua alergia por afetos, sua maneira de se dirigir muito pouco aos filhos. Começou a se drogar e, apesar de me entristecer por ele, alegrei-me em continuar na lida. O senhor sentiu o fato de Enéias cair e a morte dele nos deixou a todos arrasados. Aquele foi o primeiro e único momento em que eu o vi, papai, sentimental com os filhos e cheguei mesmo a achar que precisaria de mim. Mas o tempo passou e pareceu esquecer Enéias sem dificuldade, o que a um tempo me fez odiar e amar mais o senhor. Nunca perdeu aquele jeito de olhar para o horizonte, enquanto lhe falávamos, sempre a fitar as terras que lhe tiraram tanto suor e lhe deram recursos invejáveis. Foi um homem amado e respeitado por toda a cidade e tinha mais atenção e carinho para dar a cada um de seus cidadãos que deu a vida toda para qualquer de seus rebentos. Mas as pessoas não foram capazes de compreender sua preocupação com a família. Quando eu disse que estava partindo para estudar fora, o senhor não me respondeu palavra, senão “amanhã às cinco te levo à rodoviária”. Às cinco, estava pronta e, sem que abríssemos a boca, nos despedimos, eu feliz por  não hesitar, por ter feito o que você esperava. Não de mim. De Enéias. Em outra terra, procurei muitos homens. Mas, se eles me amavam, me desinteressava, até que me deixavam e eu podia me persuadir de que eram fracos. Tudo me era suportável, menos aceitar que o senhor estava neles. Ou que não estava. O tempo nos distanciou e, embora você brincasse de esconde-esconde com a velhice, ela o pegou. O impensável aconteceu, a cidade escutou calada. O senhor estava acamado, por força da terrível doença. A grande casa da colina se via de portas e janelas fechadas e os cidadãos andavam na rua em silêncio. De longe, onde eu morava, vim o quanto pude, evitando ver o inevitável, por acontecer, por acontecer… Não o enterrei. Um homem fraco me deu problemas e tive dificuldades de chegar a tempo. Quando o senhor morreu, eu me desembaracei dele sem pestanejar. Ando agora por entre as tumbas, enquanto sinto o cheiro de flores passadas. Encontro a sua, a mais pomposa da cidade, e me sento no mármore de Carrara. Seu caixão está sobre o de Enéias. E, por um humor mórbido e triste, me indago quem o sobrevirá. Provavelmente, a mamãe, que será enterrada entre mim e você. A falta de sentido me corta a alma nesse momento e tenho vontade de ser a próxima da família a desaparecer do mundo. Há pessoas que morrem e nunca deixam saudades, como se não tivessem morrido. Você parece que morre todo o dia… É mais provável que mamãe se vá primeiro e continue entre nós…

 

Cristina

Outubro 23, 2008 at 10:52 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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- Estava mesmo demorando para aparecer com esta sua conhecida raiva das mulheres, não, senhor Roberto da Concina. E você entendeu o que eu quis dizer.

- Direitinho. E fiquei ansiado.

- Ao invés de ficar me criticando, deveria parar de escrever estas suas idéias misóginas, entupindo a orelha dos homens, que ficam mais idiotas que já são.

- Misóginas? O que é isto mesmo?

- Misógino é aquele que tem misoginia.  

- Ahhh, tudo está límpido e cristalino agora!

- Me deixe acabar. Misoginia: desprezo às mulheres. Talvez porque as mamães foram um pouco malzinhas com eles.

 - Como você fala bonito, hein? Onde aprendeu isto, lá na Vila Madalena?

- Na Mooca é que não foi.

- Com certeza, não. Lá as mulheres gostam dos homens.

- Parece que o difícil é o contrário.

- Além do mais, nunca existiu uma mulher como a mama.

- De quem você se recusa a deixar a barra da saia.

- Por que os homens devem deixar a mamãe, doce Cecil? Para as mulheres controlarem os caras sozinhas?

- Sempre toma a coisa desta maneira, reparou? Como se fosse um eterna luta de poder entre os sexos? Deveria procurar um psicólogo.

- É. Deve ser mesmo coisa da minha imaginação. As mulheres fazerem dos homens verdadeiras marionetes. Que delírio.

- Um delírio de fato, Roberto. Um delírio de uma mente perturbada.

- Mesmo? Então, me responda. Por que, no momento em que um cara é assediado, a namorada avança sobre a outra, ao invés de brigar com ele?

- Tenho até medo de responder…

- Porque as mulheres sabem que têm que brigar com o ventríloquo e não com o boneco.

- Ah, paz! Tenho mais o que fazer da vida! Tchau!

- Ei, espere! Não me respondeu! Cecília!

 

Roberto da Concina x Cecília D’Ávila

Maior pecado feminino

Outubro 23, 2008 at 8:35 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

Ânsia é o que sentem os homens por causa desta obsessão feminina.

 

Roberto da Concina

Amor e Morte

Outubro 23, 2008 at 12:26 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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Meu maior pecado foi ansiar o “o que Deus uniu, o homem não separa”, antes de amar.

 

Cecília D’Ávila

 

(promoção do www.digestivocultural.com )

O apanhador de rosas não pode deixar de tocar os caules

Outubro 22, 2008 at 12:46 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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Pequei por temer pecar.

 

Cristina

 

(promoção do www.digestivocultural.com )

Amai o próximo

Outubro 22, 2008 at 12:39 pm | In 1, Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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Meu pecado foi amar o próximo como a mim mesmo. Eu estava com baixa estima.

 

Binho

 

(promoção do www.digestivocultural.com )

Inferno gozoso

Outubro 21, 2008 at 8:10 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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Meu maior pecado foi um dia acreditar em Deus e em sua corja de anjos. Tudo o que espero agora é me deleitar em seu gozoso inferno, ainda mais delicioso ao ver a modorra ciumenta dos de cima, que preferem juntar as mãozinhas e olhar para o alto, para não sentirem as vontades no andar de baixo.

 

Exúbero

 

(promoção do www.digestivocultural.com )

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