Cantiga de amigo

Novembro 30, 2008 at 10:40 pm | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

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Quando eu te tiver deixado

E te indagar: podemos, ao menos

Ser amigos

E me devolveres, não

Podemos mais, ser amigos.

Te tomarei contra meu peito

E me direi teu, amante eterno

Então, me afirmarás

Se deveras ama, vai-te embora

Porque não podes ficar

Sem poder ir

 

Thiago DaClô

 

(postado no www.blonicas.zip.net )

Olhando da Janela

Novembro 27, 2008 at 12:49 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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Saí à janela. Ou parte de meu corpo saiu. Vi um movimento na rua à volta da árvore, plantada há décadas, bem em frente ao meu prédio. Uma árvore pejada de galhos e folhas, cujo nome não sei. Funcionários da prefeitura a derrubavam, porque estava condenada e oferecia risco de cair. Era difícil de acreditar que, tão pulsante de verde, estivesse morta. Mas muita coisa parece viva, e está morta. A dois metros da roda crescente de curiosos, alguns homens conversavam. Discutiam, indiferentes à perícia dos funcionários, pois eram homens maduros como a árvore. Discutiam sobre o mundo. Como costuma ocorrer, quando o tema debatido é a evolução da raça humana, irrompeu acirrada polêmica no grupo, competindo com a serra elétrica. Uns deles nem admitiam ouvir que o mundo estivesse melhorando. Outros, ao contrário, diziam que estava melhor, a olhos vistos, em comparação a tempos passados. Certas vezes, precisavam interromper a discussão. A serra elétrica era mais enfática. Passavam-na de cima para baixo. Nos galhos maiores, depois nas partes superiores do tronco e, enfim, na base do tronco. Os pedaços caíam com minhas lembranças. Moleques nela dependurados, casais atrás, se amando na madrugada, cães nela amarrados, pessoas às suas sombras estagiando em meio à caminhada., meu primeiro beijo antes de entrar em casa. Os homens não chegavam a um acordo. Os argumentos de lado a lado eram contundentes. Os pessimistas apontavam para as guerras infindáveis, as catástrofes climáticas provocadas pela interferência danosa do homem na natureza, o contingente de miseráveis largados à própria sorte em todo o planeta, o advento de novas doenças incuráveis, os crimes hediondos em profusão… Aos poucos, todos fomos vendo um vazio crescer atrás da árvore depenada. Só nestes momentos nos damos conta do quanto a natureza é frondosamente refrescante do homem. Os otimistas afirmavam que todas as desgraças do mundo moderno ainda eram menos incidente ao que ocorria há um século, quem dirá séculos… A rua estava suja de galhos e folhas. Não restava nada da árvore, senão um toco de tronco. Todos foram embora e a solidão da rua ficou ainda mais espessa. Sobrou uma moça, como sobrou o concreto para todo lado. Hesitante, mas decidida, pediu aos funcionários da prefeitura para arrancarem o toco.

        - Para quê? – perguntou um deles, entrando no caminhão, quase fechando a porta.

        - Pra deixar espaço pra outro oiti.

 

Cecília D’Ávila

 

(postado no www.digestivocultural.com )

Vanguarda sem dentes

Novembro 23, 2008 at 6:31 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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Mas, convenhamos, meus caros filósofos da modernidade, está difícil achar uma vanguarda depois do “tudo pode” e do “nada é proibido” que grassam nas correntes de idéias há décadas. Mal se pode distinguir romance de conto ou de poesia, com fins de estudo, de se compreender a literatura, de mapeá-la para melhor assimilá-la, que já logo aparece indivíduo a vociferar o alcance ilimitado de uma obra de arte, que não admite ser denominada, que qualquer denominação é elemento cerceador, pois toda a expressão humana pode ser tudo, dependendo da perspectiva sob a qual se a aprecie e que, enfim, tudo pode ser tudo. A ciência não consegue aferir o limiar entre matéria morta e viva e, no entanto, não cessa de criar classificações para o avanço do conhecimento, agregando conceitos que nunca são estanques, são reativos. E em filosofia e arte? Qual vai ser a linha contestatória, qual vai ser a reivindicação se tudo pode, vez que ninguém reivindica algo que se encontra plenamente acessível? Qual vai ser a dialética, se não há mais antítese? Repararam que não temos Escola Literária ou Movimento de Cinema e Teatro desde muito? Como poderia, se a simples menção de um círculo em se agrupar em torno de uma idéia vira objeto de repúdio das classes pensantes, porque, para a comunhão de princípios, é necessário escolher certos pensamentos e preterir outros, o que é preconceito, reducionismo ou mediocridade analítica?  Talvez, a única contestação restante seja reivindicar limites, delimitações, restrições para a arte e para a filosofia. Se for o caso, vai acontecer algo sem precedentes, uma vanguarda que não venha quebrar parâmetros estabelecidos, mas pedir para se reconstruírem os antigos. Os vovôs vão sair às ruas, gritando, manifestando, provocando os inânimes jovens, de quem roubaram toda a possibilidade de rebeldia. Sim, porque a juventude vive um marasmo de dar dó. Tudo o que eles querem contestar, já foi contestado, tudo o que querem destruir já foi destruído. A moçada fica sem saber o que fazer, nada para criticar, nenhuma idéia demolidora que já não foi criada, ou todas são criadas hora após hora, o que produz semelhante efeito. De platitude. Quando eles pensam que formam uma tribo inovadora, estilizada, sui generis, deparam-se com outras dezenas de rodas com idéias igualmente revolucionárias, de pontuda iconoclastia. Por isso, as drogas estão na ordem do dia. Fumam ou cheiram, para saírem deste mundo sem graça. Talvez, um delírio mais criativo os leve para algum lugar onde reste um grupo reacionário, limitado e, ainda por cima, satisfeito com as próprias idéias.

 

Binho

 

(postado no www.copadeliteratura.com )

Mente sã em corpo são

Novembro 17, 2008 at 8:11 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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Na velha Inglaterra, uma garotinha se recusa a fazer uma operação de altíssimo risco no coração. Prefere passar seus últimos dias ao lado da família e morrer naturalmente. O negócio virou uma polêmica dos diabos, porque algumas pessoas acham que um paciente tem o direito de recusar tratamento e outras acreditam que isto abre precedentes para justificar a eutanásia em casos diversos. Para mim, depende do estado em que se encontra o serviço médico de cada país. Em alguns deles, que não quero dizer quais somos, o sujeito comete eutanásia se faz o tratamento. O fato é que a menina não quer arriscar. Até porque está bem acompanhada no sentimento de pouca fé, pois os médicos também dão pouquíssima esperança. Parece que a confiança nos recursos da medicina não anda muito em alta ultimamente, não? E não venham me dizer que, a cada ano, o homem vive mais, prova irrefutável dos avanços do conhecimento médico. Com efeito, não nego, o homem vive mais. Mas e depois? Dietas, nutricionismo, progressos na ciência genética, comida balanceada, célula tronco, ginástica localizada e vivemos um número maior de anos, munidos de corpos sarados e fortes. Porém, chegamos à velhice em companhia de dois velhos companheiros, um inglês, outro alemão. Parkinson e Alzheimer. Não cuidamos demais do corpo e de menos da cabeça? Então, a coisa se complica. Que adianta acreditar na medicina, se ela só pode cuidar da parte física? Como fica este descompasso, o corpo vai para frente e a cabeça fica para trás…? Por estas e outras, defendo bravamente o equilíbrio entre corpo e mente. Nem que para isto eu faça regulares esforços para não deixar o corpo ir adiantado demais em relação à cabeça. Quando sinto o perigo, ministro a mim mesmo um pouco de vida sedentária, não modero os vícios e passo uma ou duas semanas de esbórnia para equilibrar as coisas. É preciso dedicação para manter o corpo e a mente em harmonia.

 

Exúbero

 

(postado no www.bbc.co.uk/portuguese )

Clichê

Novembro 16, 2008 at 10:22 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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Clichê é repetir os outros. Repetir a si mesmo é estilo.

 

Cristina

 

(postado no www.blonicas.zip.net )

Como seria bom se este texto fosse irônico

Novembro 16, 2008 at 2:21 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

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Somos todos acordes sobre o péssimo nível da cultura; sobre a importância da educação para a emancipação dos países pobres; a relevância do conhecimento para tornar o homem mais valoroso; a urgência de criar um público leitor menos alienado; a manipulação do Sistema para entravar as políticas culturais; o refinamento da sensibilidade quando exposta ao espírito crítico. Somos todos bem intencionados e guardamos no coração o desejo sincero e premente de mudança do mundo. E, não há dúvida, representamos a fração da sociedade mais preparada, mais instruída e a que mais sofre por assistir impotente ao nível cultural desalentador que fossiliza os extratos sociais há séculos no Brasil. Somos todos um em princípio e anseio.

Mas não conseguimos avançar sobre a discussão de sequer um raciocínio de qualquer das perspectivas de cultura.

 

Binho

 

(postado no www.copadeliteratura.com )

Pólemista

Novembro 14, 2008 at 5:40 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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Falamos das polêmicas e plantamos, sem o querer, o que não pode germinar. Colhemos, quando muito, a reputação efêmera do polemista, qual uma flor rútila, fétida e sem caule. A quantidade de polêmica gerada nunca mostrou a qualidade do polemista. A polêmica em si é quase sempre infantil e só vale quando cria pólemizados.

 

Binho

 

(postado no www.copadeliteratura.com )

Errata

Novembro 12, 2008 at 4:10 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

Não escrevo pelo que seja, mas pelo que sói.

Soe

Novembro 12, 2008 at 2:18 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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Não escrevo pelo que seja, mas pelo sói.

 

Cristina

Habemus Papa

Novembro 10, 2008 at 10:18 pm | In Aforismos Desaforados | Leave a Comment

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O Santo Padre foi claro e vós não quereis entender o óbvio: os padres não podem perder a castidade sem deixar a batina. 

 

Exúbero

 

(postado no www.bbc.co.portuguese/ )

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