Olhando da Janela

Novembro 27, 2008 at 12:49 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment

.

Saí à janela. Ou parte de meu corpo saiu. Vi um movimento na rua à volta da árvore, plantada há décadas, bem em frente ao meu prédio. Uma árvore pejada de galhos e folhas, cujo nome não sei. Funcionários da prefeitura a derrubavam, porque estava condenada e oferecia risco de cair. Era difícil de acreditar que, tão pulsante de verde, estivesse morta. Mas muita coisa parece viva, e está morta. A dois metros da roda crescente de curiosos, alguns homens conversavam. Discutiam, indiferentes à perícia dos funcionários, pois eram homens maduros como a árvore. Discutiam sobre o mundo. Como costuma ocorrer, quando o tema debatido é a evolução da raça humana, irrompeu acirrada polêmica no grupo, competindo com a serra elétrica. Uns deles nem admitiam ouvir que o mundo estivesse melhorando. Outros, ao contrário, diziam que estava melhor, a olhos vistos, em comparação a tempos passados. Certas vezes, precisavam interromper a discussão. A serra elétrica era mais enfática. Passavam-na de cima para baixo. Nos galhos maiores, depois nas partes superiores do tronco e, enfim, na base do tronco. Os pedaços caíam com minhas lembranças. Moleques nela dependurados, casais atrás, se amando na madrugada, cães nela amarrados, pessoas às suas sombras estagiando em meio à caminhada., meu primeiro beijo antes de entrar em casa. Os homens não chegavam a um acordo. Os argumentos de lado a lado eram contundentes. Os pessimistas apontavam para as guerras infindáveis, as catástrofes climáticas provocadas pela interferência danosa do homem na natureza, o contingente de miseráveis largados à própria sorte em todo o planeta, o advento de novas doenças incuráveis, os crimes hediondos em profusão… Aos poucos, todos fomos vendo um vazio crescer atrás da árvore depenada. Só nestes momentos nos damos conta do quanto a natureza é frondosamente refrescante do homem. Os otimistas afirmavam que todas as desgraças do mundo moderno ainda eram menos incidente ao que ocorria há um século, quem dirá séculos… A rua estava suja de galhos e folhas. Não restava nada da árvore, senão um toco de tronco. Todos foram embora e a solidão da rua ficou ainda mais espessa. Sobrou uma moça, como sobrou o concreto para todo lado. Hesitante, mas decidida, pediu aos funcionários da prefeitura para arrancarem o toco.

        - Para quê? – perguntou um deles, entrando no caminhão, quase fechando a porta.

        - Pra deixar espaço pra outro oiti.

 

Cecília D’Ávila

 

(postado no www.digestivocultural.com )

Sem comentários ainda »

Feed RSS dos comentários deste post URI do TrackBack

Deixe um comentário

XHTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Blog no WordPress.com. | Theme: Pool by Borja Fernandez.
Entries and comments feeds.