Fidelidade

Junho 24, 2009 at 5:00 pm | In 1 | Leave a Comment

A vista era linda
E sobre nós, o penhasco
Era tudo o que eu esperava
A brisa a abrandar o sol
O horizonte, o véu de noiva
A se desmanchar no rio
E meu amado a me apoiar
Dou mais um passo
Segura em sua mão
Ansiosa em ver o fundo
Você já me traiu?
Ele pergunta
Eu rio
Dou uma boa gargalhada
Sozinha

CRISTINA

Poema galante perfeito

Junho 23, 2009 at 6:14 pm | In 1 | Leave a Comment

Da beleza que aflui por teus encantos
Vi dum golpe o risco de uma lágrima
Deste rosto terno como o espinho
Enxergo cera ao que era alvo linho

Em que te transformaste te pergunto
Porque és diversa, ris, e veste luto
Noutro tempo me surgiste, e me velaste
Foi amar-te para andares feito haste

No passado me sagraras cavaleiro
Mas a espada que puseste na ombreira
Bebe agora com prazer em meu pescoço
Dum instante velho sou, há pouco moço

Tua lágrima não escorre pelo rosto
A qual um dia eu supus que fosse água
É pingente de cristal e torno ao mosto

Thiago DaClô

O Corinthians é o pior time do mundo

Junho 6, 2009 at 5:36 pm | In 1 | 55 Comments

Quero aqui provar por a + b que o Corinthians é o pior time do mundo. Basta olhar com cuidado e você, caro leitor, chegará à mesma conclusão.
Todo mundo sabe que a torcida corintiana é conhecida como a mais fiel de todas, certo? E por que acham que os corintianos são tidos por fiéis? Simplesmente, porque o cidadão precisa ser fiel para torcer pelo Corinthians. Usemos um exemplo prático em nome do bom entendimento. Quem vocês acham que é mais fiel, o amante de Helena de Tróia ou o da tia Nastácia? O time faz feio e, portanto, haja fidelidade pra quem se aventura a torcer por ele.
Não venham me dizer que o Corinthians tem muitos títulos, porque não tem, não. Posso garantir que meu time, o grandioso Juventus da Mooca tem mais glórias para se gabar. O quê? Estou avariando? Então, raciocinem comigo. O Corinthians tem talvez a maior torcida do Brasil e, por isso, é a equipe mais rica. Mas, em termos de títulos importantes, perde para todo mundo: Flamengo, São Paulo, Grêmio, Santos, Cruzeiro, Palmeiras, Fluminense, Internacional… Em um século, nem com um titulozinho vagabundo como campeão das Américas ele conta. Um time com esta torcida, com este dinheiro todo, tinha a obrigação de figurar bem à frente dos demais, ora esta! É como se você fosse o Frank Sinatra e só pegasse as coristas.
Como tudo, a grandeza se mede pela equação: recursos disponíveis dividido por resultados práticos. Agora, analisem o glorioso Juventus. Com sua torcida que não dá para encher um furgão, deu alegrias históricas à sua torcida.
Eu que não quero ser fiel assim, Deus me livre! De jeito nenhum. Acha que vou ter algum orgulho de me chamarem de fiel porque estou com a tia Nastácia? Prefiro que digam que não tenho mérito nenhum em ser fiel, porque estou com a Ivete Sangalo.
Eu me lembro de quando era criança e ia para os estádios. Na época, o São Paulo era um time do tamanho do Juventus. Sua torcida era tão pequena que ele sobrevivia de emprestar seu estádio, o Morumbi, para os times grandes: Santos, Corinthians e Palmeiras, ou para as equipes dos outros Estados. Ficava com dez por cento da bilheteria. Tanto que havia uma brincadeira na época que dizia que o São Paulo era que nem garçom. Vivia dos dez por cento. Só que este timinho de várzea ganhou campeonatos importantes e o Corinthians, que lotava estádio, que abafava a voz dos são-paulinos, ganhou muito pouco pelo seu tamanho. Deu no que deu. O São Paulo tem hoje uma big torcida. Por isto, não se surpreendam quando digo, o próximo time a brilhar será o grande Juventus (não aqueles pernas-de-pau de Turim, mas o da Mooca). Vai triunfar, podem esperar, porque se até um time como o São Paulo conseguiu, nós vamos chegar lá! Tiramos a diferença dos poucos títulos que o tricolor paulista tem sobre nós e deixamos todo mundo comendo poeira.
O Palmeiras não se saiu mal. Seus torcedores não tem do que reclamar em termos de títulos, apesar de ser torcida bem menor que a do time do Corinthians. Por isso, não podem ser considerados muito fiéis também. Depois, todo mundo sabe que os palmeirenses não precisam ganhar campeonatos. Só precisam ganhar do Corinthians. Afirmo-lhes, meus caros leitores, que, além do Juventus, ninguém parou a equipe do Parque São Jorge como o Palmeiras. Confesse, amigo corintiano. Deve doer perder um jogo para os palmeirenses, hein, ah, ah, ah! Aqueles chatos que, na segunda-feira, à primeira hora da manhã, chegam ao seu cangote e sussurram, “assistiu o jogo onti?”
Bom, prezado amigo fiel. Se quiser perder um pouco sua fidelidade, para ganhar em alegrias, se quiser estourar os rojões que emboloram no seu armário, as portas do Clube Atlético Juventus estão abertas para você. Não se importe muito se os palmeirenses o chamarem de bandeirinha por trocar de time. Trocar para time pequeno é coisa de macho, fique tranqüilo.
Mas, por favor, entendam, caros leitores. Com estes argumentos irrefutáveis, longe de mim querer deslustrar a grande vitória do Corinthians em mais um título doméstico.

ROBERTO DA CONCINA

MANSARDA

Junho 1, 2009 at 6:22 pm | In 1 | Leave a Comment

Quis fazer do sótão uma mansarda, com móveis, com violão, com cheiro bom, com janela para a noite e mais a cobiçada privacidade. Mas não consegui parar de chorar ao me desfazer do entulho, as tranqueiras que enganavam a sensação de vazio. Tempos mais tarde, tive que admitir. Não dava para ter os dois, mansarda e entulho. Era preciso espaço vazio. Em desespero, joguei tudo fora. Ah, me senti oca, minha alma estava mortalmente seca! Os móveis que encomendei não chegavam nem o televisor nem o violão nem nada. Os produtos de limpeza tinham acabado. Não havia janela. Pela primeira vez rezei. Não foi uma prece humilde, mas blasfema. De quem não pede, manda, não espera, urge. Abraçando as pernas no chão, eu sapateava um flamenco. Olhei para as estrelas. A platéia fumava indiferente à minha desolação. Porém, houve uma noite fria em que Deus estava na assistência e eu senti. Estava entulhada e não sentia.
Um dia, tocam a campainha, são as encomendas. Não respondo, deixo-os partir. Pela Vila Madalena que amo, rodopio em postes de luz e pulo oceanos como poças d’água.

Cristina

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