MANSARDA

Junho 1, 2009 at 6:22 pm | In 1 | Leave a Comment

Quis fazer do sótão uma mansarda, com móveis, com violão, com cheiro bom, com janela para a noite e mais a cobiçada privacidade. Mas não consegui parar de chorar ao me desfazer do entulho, as tranqueiras que enganavam a sensação de vazio. Tempos mais tarde, tive que admitir. Não dava para ter os dois, mansarda e entulho. Era preciso espaço vazio. Em desespero, joguei tudo fora. Ah, me senti oca, minha alma estava mortalmente seca! Os móveis que encomendei não chegavam nem o televisor nem o violão nem nada. Os produtos de limpeza tinham acabado. Não havia janela. Pela primeira vez rezei. Não foi uma prece humilde, mas blasfema. De quem não pede, manda, não espera, urge. Abraçando as pernas no chão, eu sapateava um flamenco. Olhei para as estrelas. A platéia fumava indiferente à minha desolação. Porém, houve uma noite fria em que Deus estava na assistência e eu senti. Estava entulhada e não sentia.
Um dia, tocam a campainha, são as encomendas. Não respondo, deixo-os partir. Pela Vila Madalena que amo, rodopio em postes de luz e pulo oceanos como poças d’água.

Cristina

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