Tamanho família
Novembro 25, 2009 at 7:28 pm | In Crônicas Diárias | Leave a CommentFui vestida para matar, receando assustar o moço. Não gosto de decotes, mas meus seios se mostravam com vida própria. Esperei na calçada de casa, feliz por não encontrar nenhum conhecido.
Quando me viu, o cara estava tão nervoso que piscou para o carro e olhou para mim. Era um big de um carrão. Zero, caro, lustrado como um peito de estátua. Pelo tamanho do auto, imaginei que ele fosse me levar para jantar no Waldorf-Astoria. Mas me levou para comer no Drive thru. É, isto mesmo, a gente fez um lanche no auto. Reclamei, mas ele me disse que faríamos um pick nick e cedi. Verdade que o sujeito não economizou. Pagou tudo o que eu queria, sanduíche, sunday, milk shake, fritas, tudo large, tamanho família. Eu lhe disse que meu sobrinho adorava os brindes ganhos nos lanches e ele não hesitou. Pediu cinco tipos diferentes, para dar ao garoto e me deixou cheia de lembrancinhas. Pagou a conta alta com o cartão de crédito como quem paga cigarros. American Express. Passamos uma hora a rodar pela cidade, o carro seguindo pelas ruas sem destino, o câmbio roçando minha perna toda a hora e eu me fazendo de desentendida. Estacionou na pracinha do Por do Sol e, pela vista panorâmica, me lembrei de que estava em São Paulo. O moço argumentou que fazia uma noite quente e era bom ficar ao ar livre com moradora da Vila Madalena. Achei espirituoso e, como estava naqueles dias em que um chaveiro escrito oi comovia, fiquei tocada. Os beijos esquentaram e eu preferi o ar condicionado. O carro saiu cantando os pneus. Ao invés de me levar a um motel, me levou a um Drive in. Drive in!? Ninguém mais vai a um Drive in! Fiquei ofendida. Se ele posava de burguês, por que achava que podia ser diferente com a mamãe aqui? Usou um argumento demolidor: um quarto de hotel era impessoal. Sabem como é, né, garotas? Nesta montanha russa – ou roleta? – que é a vida amorosa, na hora da subida é salto alto, na descida, é precipício. A fila anda e a gente ri com arrogância, no topo, ri com humildade, na queda, grita como uma serial vítima e não enjoa quando o ciclo já passou. E a gente aceita ir de um drive thru a um drive in. In thru. Lá estacionados, pensei que a história do drive fosse ter fim, mas ele colocou um cd no disc drive de seu carro. Claro que o automóvel não tinha um aparelho de som, tinha um computador. Colocou uma música bate estaca para matar vampiro da noite e parecia se deleitar com a música, enquanto berrava o refrão I never wanna die. Eu me perguntando, pra quê? Sente só o som, ele suspirou. Quatro caixas acústicas e oito tweeter.
Não aguentei mais. Virei para ele e lhe perguntei se aquela era a sua primeira vez. Ele: não, saiu da loja faz alguns dias já.
Cecília D’Ávila
(postado no www.blonicas.zip.net )
Canto a amigos
Outubro 22, 2009 at 3:51 pm | In Crônicas Diárias | Leave a CommentAh, queridos e amados amigos
Quero dizer o quanto sou grato
Não só por terem vivido comigo
Ou terem estado ao meu lado
Me livraram dos jogos de amar
Me salvaram de olhos errantes
Quando a mim não podiam avisar
Ou alcançar por estarem distantes
Porque hoje é meu o seu manto
Seu olhar e conselho direto
Agradeço por isso também
Mas ainda é maior o seu veto
Pelo o que dentro contem
Me fizeram sentir o sentido
Que distingue a emoção e a dor
Jamais me esqueci do ouvido
E caí em promessas de amor
Porque hoje é meu seu encanto
Dois se amam se mil amaram
E estou só para estar com alguém
Porque antes vocês me mostraram
Que amo a todos ou amo a ninguém
Da existência parece um decreto
Que amigos ensinam em presença
Com palavras, gestos e afeto
Mas no mais nos guiam em ausência
Porque hoje é seu o meu canto
Pois me inebrio de poesia
Setembro 26, 2009 at 6:14 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment- Não acredito no que estou vendo, você por aqui?
- Oi, e aí!! Quanto tempo, onde cê tem andado?
- Ué, estou no mesmo lugar. Você sumiu, meu!
- A gente se dava tão bem… E teu pai?
- Melhorou um pouco por estes dias.
- Márcia disse que tava pior?
- Cê encontrou ela onde?
- Acho que foi na rua.
- Passa lá em casa!
- Cê também, vai lá.
- Abraço na esposa.
- Outro na tua
- Mando, sim.
- Passa lá.
- Passo.
- Até.
- Té
Cristina
Olhando da Janela
Novembro 27, 2008 at 12:49 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
Saí à janela. Ou parte de meu corpo saiu. Vi um movimento na rua à volta da árvore, plantada há décadas, bem em frente ao meu prédio. Uma árvore pejada de galhos e folhas, cujo nome não sei. Funcionários da prefeitura a derrubavam, porque estava condenada e oferecia risco de cair. Era difícil de acreditar que, tão pulsante de verde, estivesse morta. Mas muita coisa parece viva, e está morta. A dois metros da roda crescente de curiosos, alguns homens conversavam. Discutiam, indiferentes à perícia dos funcionários, pois eram homens maduros como a árvore. Discutiam sobre o mundo. Como costuma ocorrer, quando o tema debatido é a evolução da raça humana, irrompeu acirrada polêmica no grupo, competindo com a serra elétrica. Uns deles nem admitiam ouvir que o mundo estivesse melhorando. Outros, ao contrário, diziam que estava melhor, a olhos vistos, em comparação a tempos passados. Certas vezes, precisavam interromper a discussão. A serra elétrica era mais enfática. Passavam-na de cima para baixo. Nos galhos maiores, depois nas partes superiores do tronco e, enfim, na base do tronco. Os pedaços caíam com minhas lembranças. Moleques nela dependurados, casais atrás, se amando na madrugada, cães nela amarrados, pessoas às suas sombras estagiando em meio à caminhada., meu primeiro beijo antes de entrar em casa. Os homens não chegavam a um acordo. Os argumentos de lado a lado eram contundentes. Os pessimistas apontavam para as guerras infindáveis, as catástrofes climáticas provocadas pela interferência danosa do homem na natureza, o contingente de miseráveis largados à própria sorte em todo o planeta, o advento de novas doenças incuráveis, os crimes hediondos em profusão… Aos poucos, todos fomos vendo um vazio crescer atrás da árvore depenada. Só nestes momentos nos damos conta do quanto a natureza é frondosamente refrescante do homem. Os otimistas afirmavam que todas as desgraças do mundo moderno ainda eram menos incidente ao que ocorria há um século, quem dirá séculos… A rua estava suja de galhos e folhas. Não restava nada da árvore, senão um toco de tronco. Todos foram embora e a solidão da rua ficou ainda mais espessa. Sobrou uma moça, como sobrou o concreto para todo lado. Hesitante, mas decidida, pediu aos funcionários da prefeitura para arrancarem o toco.
- Para quê? – perguntou um deles, entrando no caminhão, quase fechando a porta.
- Pra deixar espaço pra outro oiti.
Cecília D’Ávila
(postado no www.digestivocultural.com )
Vanguarda sem dentes
Novembro 23, 2008 at 6:31 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
Mas, convenhamos, meus caros filósofos da modernidade, está difícil achar uma vanguarda depois do “tudo pode” e do “nada é proibido” que grassam nas correntes de idéias há décadas. Mal se pode distinguir romance de conto ou de poesia, com fins de estudo, de se compreender a literatura, de mapeá-la para melhor assimilá-la, que já logo aparece indivíduo a vociferar o alcance ilimitado de uma obra de arte, que não admite ser denominada, que qualquer denominação é elemento cerceador, pois toda a expressão humana pode ser tudo, dependendo da perspectiva sob a qual se a aprecie e que, enfim, tudo pode ser tudo. A ciência não consegue aferir o limiar entre matéria morta e viva e, no entanto, não cessa de criar classificações para o avanço do conhecimento, agregando conceitos que nunca são estanques, são reativos. E em filosofia e arte? Qual vai ser a linha contestatória, qual vai ser a reivindicação se tudo pode, vez que ninguém reivindica algo que se encontra plenamente acessível? Qual vai ser a dialética, se não há mais antítese? Repararam que não temos Escola Literária ou Movimento de Cinema e Teatro desde muito? Como poderia, se a simples menção de um círculo em se agrupar em torno de uma idéia vira objeto de repúdio das classes pensantes, porque, para a comunhão de princípios, é necessário escolher certos pensamentos e preterir outros, o que é preconceito, reducionismo ou mediocridade analítica? Talvez, a única contestação restante seja reivindicar limites, delimitações, restrições para a arte e para a filosofia. Se for o caso, vai acontecer algo sem precedentes, uma vanguarda que não venha quebrar parâmetros estabelecidos, mas pedir para se reconstruírem os antigos. Os vovôs vão sair às ruas, gritando, manifestando, provocando os inânimes jovens, de quem roubaram toda a possibilidade de rebeldia. Sim, porque a juventude vive um marasmo de dar dó. Tudo o que eles querem contestar, já foi contestado, tudo o que querem destruir já foi destruído. A moçada fica sem saber o que fazer, nada para criticar, nenhuma idéia demolidora que já não foi criada, ou todas são criadas hora após hora, o que produz semelhante efeito. De platitude. Quando eles pensam que formam uma tribo inovadora, estilizada, sui generis, deparam-se com outras dezenas de rodas com idéias igualmente revolucionárias, de pontuda iconoclastia. Por isso, as drogas estão na ordem do dia. Fumam ou cheiram, para saírem deste mundo sem graça. Talvez, um delírio mais criativo os leve para algum lugar onde reste um grupo reacionário, limitado e, ainda por cima, satisfeito com as próprias idéias.
Binho
(postado no www.copadeliteratura.com )
Mente sã em corpo são
Novembro 17, 2008 at 8:11 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
Na velha Inglaterra, uma garotinha se recusa a fazer uma operação de altíssimo risco no coração. Prefere passar seus últimos dias ao lado da família e morrer naturalmente. O negócio virou uma polêmica dos diabos, porque algumas pessoas acham que um paciente tem o direito de recusar tratamento e outras acreditam que isto abre precedentes para justificar a eutanásia em casos diversos. Para mim, depende do estado em que se encontra o serviço médico de cada país. Em alguns deles, que não quero dizer quais somos, o sujeito comete eutanásia se faz o tratamento. O fato é que a menina não quer arriscar. Até porque está bem acompanhada no sentimento de pouca fé, pois os médicos também dão pouquíssima esperança. Parece que a confiança nos recursos da medicina não anda muito em alta ultimamente, não? E não venham me dizer que, a cada ano, o homem vive mais, prova irrefutável dos avanços do conhecimento médico. Com efeito, não nego, o homem vive mais. Mas e depois? Dietas, nutricionismo, progressos na ciência genética, comida balanceada, célula tronco, ginástica localizada e vivemos um número maior de anos, munidos de corpos sarados e fortes. Porém, chegamos à velhice em companhia de dois velhos companheiros, um inglês, outro alemão. Parkinson e Alzheimer. Não cuidamos demais do corpo e de menos da cabeça? Então, a coisa se complica. Que adianta acreditar na medicina, se ela só pode cuidar da parte física? Como fica este descompasso, o corpo vai para frente e a cabeça fica para trás…? Por estas e outras, defendo bravamente o equilíbrio entre corpo e mente. Nem que para isto eu faça regulares esforços para não deixar o corpo ir adiantado demais em relação à cabeça. Quando sinto o perigo, ministro a mim mesmo um pouco de vida sedentária, não modero os vícios e passo uma ou duas semanas de esbórnia para equilibrar as coisas. É preciso dedicação para manter o corpo e a mente em harmonia.
Exúbero
(postado no www.bbc.co.uk/portuguese )
Como seria bom se este texto fosse irônico
Novembro 16, 2008 at 2:21 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
Somos todos acordes sobre o péssimo nível da cultura; sobre a importância da educação para a emancipação dos países pobres; a relevância do conhecimento para tornar o homem mais valoroso; a urgência de criar um público leitor menos alienado; a manipulação do Sistema para entravar as políticas culturais; o refinamento da sensibilidade quando exposta ao espírito crítico. Somos todos bem intencionados e guardamos no coração o desejo sincero e premente de mudança do mundo. E, não há dúvida, representamos a fração da sociedade mais preparada, mais instruída e a que mais sofre por assistir impotente ao nível cultural desalentador que fossiliza os extratos sociais há séculos no Brasil. Somos todos um em princípio e anseio.
Mas não conseguimos avançar sobre a discussão de sequer um raciocínio de qualquer das perspectivas de cultura.
Binho
(postado no www.copadeliteratura.com )
Sonolência com justiça
Novembro 9, 2008 at 2:04 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
Vejam, meus amigos, esta notícia abaixo, recentemente publicada na BBC Brasil:
Mundo
Quinta, 6 de novembro de 2008, 12h28 Atualizada às 13h14
Austrália: juiz dorme e julgamento é anulado
Da BBC Brasil
A Alta Corte da Austrália decidiu anular a condenação de dois homens acusados de tráfico de drogas porque o juiz do julgamento original cochilou repetidamente durante partes do procedimento.
Evidência apresentada ao tribunal indicou que o juiz dormiu por períodos de até 20 minutos e, algumas vezes, roncou, chamando a atenção dos jurados.
Os jurados se mostravam visivelmente distraídos e, muitas vezes, entretidos com o incidente, enquanto muitos funcionários do tribunal derrubavam documentos no chão em uma tentativa de acordar o juiz.
(extraído de www.bbc.co./portuguese/ )
Deveriam dar aqueles tapa-olhos para que a luz do tribunal não incomodasse a soneca do juiz. A deusa da Justiça não tem venda nos olhos? Então. Não vamos condenar o pobre homem. Pensem bem, não deve ser nada fácil ouvir a pendenga dos gloriosos advogados, com aquelas palavras novinhas, que tiraram das cartas de Pero Vaz de Caminha. Já imaginaram? E tome decisões interlocutoriais pra cá, e tome fato anterior impunível pra lá. Sem contar as frases modernas, usadas à exaustão em meio ao julgamento: data venia, meritíssimo; causa sine qua non, senhores jurados; ced lex dura lex, vade retro, vi vini vinci etc… Não deve ser mole. O juiz regula muito bem reguladinho seu aparelho auditivo e o que escuta? Os mesmos recursos todo o dia, as mesmas fórmulas protocolares, as mesmas orações impostadas por jovens profissionais do Direito como se Cícero tivesse acabado de cunhar as frases. Por outro lado, o meritíssimo só fez com olhos fechados o que os colegas aprendem a fazer com olhos abertos. Tudo bem que, roncar, já é um pouco demais, mas pior são os que estão bem despertos e, diante de todas as provas irrefutáveis e materiais, dão ganho de causa aos egrégios administradores do bem público. Agora, se há os que dormem durante o julgamento, imaginem quanto devem dormir ao lerem aqueles calhamaços que são os processos, hein? Valha-me Deus! A gente pensa que é cola aqueles pingos que vemos em algumas páginas, deixados pelo descuido de algum escrivão, mas, vai ver, e é baba. Por isto que, quando você puxa uma página, o processo vem todo junto. Mas o que me impressionou mais na notícia foi a postura dos funcionários do tribunal que derrubavam documentos no chão, para acordarem o juiz. E dizem que só há compadrio aqui no Brasil, hã? Repararam que, apesar de ficar claro que o distinto juiz chegou a dormir vinte minutos seguidos, nunca se falou, pelo menos na matéria, em destituição do sujeito do cargo. Se fosse aqui, no Brasil, o povo reclamava: absurdo, isto só acontece aqui, o meritíssimo é pego em flagrante falta e não é punido. Ora, também, não podemos reclamar dos juízes do Brasil. Eles são os últimos que podem ser punidos. Pois seguem religiosamente o princípio: não julgueis, para não serdes julgados.
Roberto da Concina
Manifesto
Outubro 30, 2008 at 5:39 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
Como escritor, manifesto-me desde já sobre as novas regras do hífen. Desobedecerei. Em meus próximos livros, impedirei que os revisores “arrumem” a colocação dos hífens. E conclamo meus colegas de ofício a fazerem o mesmo. Embora o referido sinal diacrítico represente parcela pequena em face da infinidade de regras gramaticais da língua portuguesa, eu e uma montanha de críticos somos acordes em considerar o hífen algo absolutamente desnecessário, a despeito de haver outras tantas dispensáveis na sintaxe pátria. Porém, é preciso eleger os mais grosseiros e limpá-los gradualmente, porque muitas justas reivindicações foram perdidas por se almejar mudança abrupta. Prefiro acreditar no discernimento das pessoas, que vem através do hábito de leitura, a ficar limitando suas escolhas, como se fossem crianças. Se o sujeito quer escrever super-homem que o faça. Se quiser, super homem, também. E, mesmo, superhomem. Se desejar autodidata ou auto-didata, tudo bem e, até, auto didata. Se quiser contrabaixo, ok, ou contra-baixo e contra baixo, está valendo. Extraconjugal, tudo bem, extra-conjugal e extra conjugal também. Supracitado, supra-citado ou supra citado (ou infra). Para mim, o uso do hífen deve ser uma escolha estilística. Quem deve definir como escrever é o bom senso e o bom gosto, que são apurados pela leitura. Ninguém cria norma para regrar a sensibilidade, mas todos sabem quando um sujeito escreve uma frase elegante, concisa ou apropriada. (Embora, conselhos, sejam bem vindos). Se quisermos ser indivíduos livres, precisamos exercitar a liberdade e pagar pelos erros inevitáveis do aprendizado. A liberdade sempre exige um preço. Escritores, uni-vos. A cada vez que ignoramos uma regrinha desnecessária, resgatamos mil excluídos da cultura.
(postado no www.digestivocultural.com )
Papai
Outubro 27, 2008 at 3:29 pm | In Crônicas Diárias | Leave a Comment.
Eu cortava a grama de nossa casa como poucos homens fariam. Carreguei as caixas de frutas de nossa fazenda com mais força e em menos tempo que meu irmão Enéias. Fui a primeira a andar a cavalo e ninguém me superou nas duras cavalgadas. Por esse motivo, não quero que se preocupe, pai. Jamais me importei pelo senhor ter escolhido minha irmã como a princesa que nunca poderia pegar no pesado, enquanto nos punha a nós, o resto de seus filhos, na lida ao lado dos peões. Ao contrário, guardava um secreto orgulho pelo fato de o senhor, em momento algum de nossas vidas, demonstrar que via em mim a fragilidade feminina, ainda que me visse como mulher - isto é uma coisa que uma mulher sabe. Depois, sempre me senti tentada em pensar que este fosse o motivo do senhor se mostrar sempre distante de mim… Descanse em paz, não se cobre por nada que ficou no passado. É verdade, Enéias não conseguiu suportar o seu jeito durão, sua alergia por afetos, sua maneira de se dirigir muito pouco aos filhos. Começou a se drogar e, apesar de me entristecer por ele, alegrei-me em continuar na lida. O senhor sentiu o fato de Enéias cair e a morte dele nos deixou a todos arrasados. Aquele foi o primeiro e único momento em que eu o vi, papai, sentimental com os filhos e cheguei mesmo a achar que precisaria de mim. Mas o tempo passou e pareceu esquecer Enéias sem dificuldade, o que a um tempo me fez odiar e amar mais o senhor. Nunca perdeu aquele jeito de olhar para o horizonte, enquanto lhe falávamos, sempre a fitar as terras que lhe tiraram tanto suor e lhe deram recursos invejáveis. Foi um homem amado e respeitado por toda a cidade e tinha mais atenção e carinho para dar a cada um de seus cidadãos que deu a vida toda para qualquer de seus rebentos. Mas as pessoas não foram capazes de compreender sua preocupação com a família. Quando eu disse que estava partindo para estudar fora, o senhor não me respondeu palavra, senão “amanhã às cinco te levo à rodoviária”. Às cinco, estava pronta e, sem que abríssemos a boca, nos despedimos, eu feliz por não hesitar, por ter feito o que você esperava. Não de mim. De Enéias. Em outra terra, procurei muitos homens. Mas, se eles me amavam, me desinteressava, até que me deixavam e eu podia me persuadir de que eram fracos. Tudo me era suportável, menos aceitar que o senhor estava neles. Ou que não estava. O tempo nos distanciou e, embora você brincasse de esconde-esconde com a velhice, ela o pegou. O impensável aconteceu, a cidade escutou calada. O senhor estava acamado, por força da terrível doença. A grande casa da colina se via de portas e janelas fechadas e os cidadãos andavam na rua em silêncio. De longe, onde eu morava, vim o quanto pude, evitando ver o inevitável, por acontecer, por acontecer… Não o enterrei. Um homem fraco me deu problemas e tive dificuldades de chegar a tempo. Quando o senhor morreu, eu me desembaracei dele sem pestanejar. Ando agora por entre as tumbas, enquanto sinto o cheiro de flores passadas. Encontro a sua, a mais pomposa da cidade, e me sento no mármore de Carrara. Seu caixão está sobre o de Enéias. E, por um humor mórbido e triste, me indago quem o sobrevirá. Provavelmente, a mamãe, que será enterrada entre mim e você. A falta de sentido me corta a alma nesse momento e tenho vontade de ser a próxima da família a desaparecer do mundo. Há pessoas que morrem e nunca deixam saudades, como se não tivessem morrido. Você parece que morre todo o dia… É mais provável que mamãe se vá primeiro e continue entre nós…
Cristina
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