Cantiga de amigo

Novembro 30, 2008 at 10:40 pm | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

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Quando eu te tiver deixado

E te indagar: podemos, ao menos

Ser amigos

E me devolveres, não

Podemos mais, ser amigos.

Te tomarei contra meu peito

E me direi teu, amante eterno

Então, me afirmarás

Se deveras ama, vai-te embora

Porque não podes ficar

Sem poder ir

 

Thiago DaClô

 

(postado no www.blonicas.zip.net )

Cedo não cedo

Outubro 31, 2008 at 11:53 am | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

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Os homens

Não são menos apaixonados

Não são menos emotivos

Nem menos insensíveis

Os homens são o que são

Indivíduos com seu tempo

De amar

Não amam como as mulheres

Senão, mulheres seriam

O que une os dois

É que são dois opostos

Pois pólos iguais não se atraem

No entanto, diferentes sendo

São iguais em sentimento

Mas divergem no tempo

Em que governa o coração  

O amor da mulher é apressado

O do homem é temeroso

O amor da mulher é sem barreiras

O do homem, corrida de obstáculos

Porque

A mulher é senhora do mundo

Íntimo

O homem, do mundo externo

A mulher está à vontade

Nas emoções

O homem, na razão

Quando um e outro

Entram em campo alheio

Sentem-se inseguros

Assim, mulheres, saibam de vez

Que nós somos inseguros

Caso entremos no seu reino

A intimidade

Nadamos na superfície do amor

Enquanto vocês, mergulhadoras

Tateamos cavernas

Enquanto vocês, espeleólogas

Nos assusta o mar

Enquanto vocês, escafandristas

Assim, lhes peço

Ó bibelôs de aço

Dêem-nos mais tempo

Por que fazem como os ursos

Que, se abrem um abraço

Afugentam quem amam

Esperem um pouco

Para nos ofertar seu corpo

Ainda que urremos em pedir

Pois cada homem é dois

Um que ama e outro que deita

Até o dia em que amamos

E finalmente nos tornamos

Um

O que ama em nós, comanda

E ergue o que deita

Esperem um pouco

Ó musas tardias

Para que conheçamos

Suas almas

Antes do corpo

Mesmo se mentirmos

Que as amamos

E mentiremos

Fazendo votos de amor eterno

E faremos

Porque, na verdade

Mentimos primeiro para nós

Homens

Está aí nosso erro

Encantados por sua plástica

Julgamos que as amamos

Assim

Se nos cedem seu corpo

Antes da hora

Quebram-nos o encanto

Esperem, lhes suplico

Inda que imploremos

Não os dêem

Inda que rezemos

Sejam vocês

O que nós não podemos

Ser corpo e alma a um tempo

Porque nós homens somos

Corpo e depois

Alma

Sejam vocês

O que nós não podemos

 

Porque também nós

Queremos amar

 

Thiago da Clô

 

(postado no www.interney.net/blogs/gravataimerengue/ )

Velho índio

Outubro 12, 2008 at 7:18 pm | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

Peguei a caneca de chá e levei-a à boca sem vontade. Enchi a boca e tive que engolir logo para me livrar do amargor. Devolvi a xícara ao solo humoso e me recusei a continuar a beber. Pareceu-me ver o sorriso quebradiço do velho índio. Ele balançou a cabeça e insistiu. É preciso beber. Poderia colocar um pouco de açúcar, pedi. Ele continuou a mascar a haste que levava no canto da boca e explicou que havia rapadura no fundo da caneca. Pedi-lhe, então, uma colher para mexer e ele recusou. Não. Disse. Continue a tomar que a bebida adoça com o balanço. Minha mente se remexia com a voluntariedade do índio. Ele, olhos baixos: pode deixar para beber depois. Deu mais algumas mascadas bexiguentas na haste que me pareceu ser cana de açúcar. Mas, se beber à tarde, você vem pela mão da sede e o doce empedra no fundo. Eu, boca travada, dei mais um gole, me parecendo que ele segurava no rosto expressão divertida. Não sabia no que a bebida ajudava, mas seus olhos baços, muito atrás de um rosto pétreo, me mimavam. Ao fim do conteúdo, o chá não estava desagradável, inda que também não prazeroso. Bebi tudo e pedi mais uma caneca, porque almejava a cura para breve. O índio me deu. E quantas mais eu quis. Como chamam este chá, perguntei, quando devolvia a caneca vazia ao solo. Vida. Disse.

 

Djogai  

Os olhos da abelha

Outubro 7, 2008 at 2:05 pm | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

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Binho, Binho, sei que é difícil para alguém como você entender os sentimentos um tanto conturbados que andam no coração das mulheres, e de incontáveis adultos avançados na idade, nos dias de hoje. Sim, meu amado, é de se lamentar que elas, privilegiadas pelo acesso a tanta informação, por vivenciar experiências impensáveis há algumas décadas e por contarem com formação emocional e intelectual suficiente, enalteçam o homem rude e sem cultura básica e, do mesmo modo, sem culpa por seu comportamento constrangedor. Também as mulheres lamentam que certos homens valorizem parceiras de nível desaconselhável, ao invés de pessoas de trato. No entanto, é preciso que a gente pense um pouquinho mais a respeito dessas ocorrências, ou inversões.

        Parece que vemos valores e conceitos desencontrados na vida moderna e as pessoas não se sentem confortáveis em mostrar seus sentimentos ou em expressar suas posições verdadeiras. Permanecem em postura defensiva diante de quadro um tanto movediço que mais sugere um jogo de viver e não o viver propriamente. Todos se acostumaram a não dizer a verdade, encarando tal hábito como natural, “uma contingência da vida”, desculpam-se, sem mesurar com detença as distâncias éticas da escolha. Chamam de mentirinhas, mas não se dão conta de que estas vão se acumulando ao longo da vida e a coisa se revela uma mentirona a certa altura. Até porque, a mentira vai pouco a pouco se apossando de nossas convicções e avalizando inverdades maiores, o que é muito perigoso. Ninguém parte desde o início contando uma grande mentira. Todos os que se tornaram maus, começaram com pequenas mentiras, pois a pureza da infância sempre credita o sujeito ao instinto da verdade, o que lhe faz repugnar grandes faltas morais nos verdes anos. O que transforma indivíduos puros em homens de imenso comprometimento moral é justamente o lento evoluir de mentirinhas, até os grandes delitos, os delitos capitais. Calma, não digo que pessoas que contam pequenas mentiras irão por certo se tornar criminosos, oh, não.

        Sei, Binho, sei bem que é difícil admitir mulheres aceitando, e propagando, que o convívio com os rudes é o melhor e o único caminho para a relação sentimental feliz. Mas a gente não pode se esquecer de avaliar que estas mulheres são movidas, muitas vezes, pelo desejo da verdade. Sim, isto mesmo, meu caro. Elas se sentem afrontar por tanta mentira e, cansadas de flagrar a impostura da vida em comum, precisam dar um alívio ao seu espírito reto. E acabam por mitificar o homem rude, do campo ou da cidade, o trabalhador braçal, o sujeito que cumpre tarefas simples. Veja que elas, agindo assim, com essa escolha um pouco extravagante, não podem ser acusadas de indiferença. Ah, a terrível indiferença que leva as pessoas a não errarem, quando melhor seria que errassem. Pois não é verdade que algumas pessoas deixam de mitificar justamente por não se importarem com a crescente falsidade entre os homens? Não podemos negar, não, não podemos: o espírito bom anseia por um sonho, quando é triste a realidade.

        Assim, elas olham para o homem sem formação, o homem que mora distante, distante do conhecimento delas, e se sentem tentadas a realçar a simplicidade das vidas sem sofisticação. Afinal, o que a sofisticação trouxe, feitas as contas, ao homem moderno? A sofisticação de mentiras? Chega a dar a impressão de que, mais o indivíduo estuda, mais fomenta sua capacidade de formular justificativas inteligentes para as próprias fantasias ou limites. Lá, naquele pequeno torrão de vida, onde pouco se aprendeu, pouco se pode mentir. Nossa alma tem vontade de acreditar nesse mundo melhor, onde os homens falam frases mais diretas, menos rebuscadas, onde, talvez, não haja tantas figuras de retórica a que recorrer.

        Sabe, Binho, uma mulher, toda mulher, precisa ser cuidada. Precisa sentir-se protegida, por mais forte e independente, por mais avançada em conhecimentos e bem sucedida no campo profissional. Está escrito na alma feminina o desejo de ser cuidada por um companheiro que a ame. Este sentimento tão profundo, e instintivo, se vê frustrado num mundo onde palavras têm pouco valor. E os valores recebem cada vez mais nomes para definir a mesma coisa, provando que as palavras estão esvaziadas de força. Nos meios mais simples, as palavras para definir valores continuam as mesmas, porque ainda funcionam, a despeito de serem rudes, por vezes secas, às vezes duras, como “prestar” ou “não prestar”, quando se referem a alguém. E, na fragilidade de sentido, antevemos a fragilidade dos homens civilizados em definir-se diante das mulheres. Como também vemos a recíproca, delas para eles. Porém – sem preconceito, sem generalizações – a concisão, a precisão, a objetividade, a economia de palavras e seu salto em atitude, pertencem muito mais ao elemento masculino que ao feminino. De modo que, por natureza, deles se espera a conduta atuante e sem rodeios, próxima à maneira dos homens de vida simples.

Não quero dizer que os avanços da vida educada, estudada, são falsos e postiços e a modernidade desfibra as pessoas. Desejo apenas lembrar a importância das lições de nossas origens, tentando associar o aprendizado de hoje ao legado do passado. Bendigo a modernidade que nos enriqueceu com tantas perspectivas novas para enxergar a vida e nos tornou mais sutis, mais perspicazes no sentido de conhecer as diferenças, e compreender uns aos outros. Porque, para conhecer as diferenças, nada como o olhar da abelha, dotada de muitos olhos. Porém, para isso, pagamos o preço inicial – que será ajustado, ah, será, no decorrer do tempo. Primeiro, esfacelam-se as idéias monolíticas, para o bem de toda a civilização, mas, depois, brotam por todo o lado posições e idéias reveladoras, a ponto de nos fazer ver as coisas com excessiva complexidade. E a gente deixa de pensar simples. E talvez seja este o nosso erro que, de uma maneira enviesada, as mulheres ora criticam nos homens nos relacionamentos afetivos. Erro que fica realçado toda vez que de nós se aproxima uma pessoa simples. Com sua simplicidade, nos mostra algo que toda a confusão de idéias dissimulou no mundo moderno. Precisamos ser complexos para ver a complexidade de um modo simples.

 

Djogai

Quando morrem os heróis III

Agosto 24, 2008 at 10:48 pm | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

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Outra noite nos acolhe. O dia se vai há pouco. Recostemos a cabeça nestes feixes de palha. Olhemos para a noite salpicada de estrelas e nos permitamos sonhar, enquanto me deixam continuar o que dizia, sem distrair a mente aos estalidos da fogueira que nos aquece.

O desejo de efabulação, ou aquele impulso que temos de ouvir histórias de grandes homens, atravessam os tempos, são ancestrais e eu posso lhes assegurar como poucos sobre este ponto. Em minha tribo perdida na Amazônia, era comum o recolhimento à volta da fogueira, para que se ouvissem casos e lendas. Hoje, a luz do fogo foi trocada pela luz da fotografia, a luz que queima uma película e se transforma em animação, em cinema. As antigas vozes dos contadores (que ainda existem no mundo moderno) foram substituídas pelas narrativas impressas nas linhas dos livros ou nos enredos pirografados em imagens.

Todo o desdouro aos valores dos heróis modernos, assim como toda a diversidade da tecnologia atual, não mudaram o desejo de ouvirmos histórias, como há 10 mil anos, que referem a acontecimentos incomuns, de pessoas incomuns. Por quê? Somos animados por necessidade visceral e duradoura a ouvirmos histórias de façanhas sobre-humanas. Mas por quê? Afinal de contas, também se enriquece a alma o conhecimento realista do ser, em que se elaboram personagens mais desenvolvidas, mais ricas, cujas fraquezas são exploradas, levando-nos ao maior entendimento de nossos limites, o que nos oferece informações valiosas para dominá-los. Ora, se isto é verdade, era de se supor que o homem fosse deixando de lado, cada vez mais, a construção dual e simplista da polarização bem-mal. No entanto, o espírito ainda continua a desejar os grandes feitos, feitos por homens grandes. A resposta para esse fenômeno está no fato de existir no íntimo de cada um de nós discreto impulso que exerce irresistível atração pelo desejo de crescer. E crescer até o infinito. Por que nós, eu, você, eles, todos nós temos um herói interior, sim, isto mesmo. Um herói que habita em nosso núcleo essencial, dissimulado, a espreita do momento em que lhe daremos a chance de vir para fora, de irromper num dia memorável a casca que pouco a pouco descascamos. Mas, enquanto está quieto, ele espia. Às vezes, se envergonha de nós e rebaixa os olhos, deixando-os cair nos pés, que andarão. Às vezes, se orgulha, pula de alegria, pula, sonha em dia de glória. Às vezes, chora e chega mesmo a pensar que nunca o iremos libertar. Espreita, feito irrequieto demônio, um daimon, do interior da lâmpada maravilhosa. Aplaude os heróis escritos nas histórias que lemos, vibra, grita, eis você, ele quer dizer, e diz. Por momentos, escutamo-lo, por vezes, não. Certas vezes, queremos ver as facetas do mal no grande homem, para que nos sintamos melhor, menos diminuídos. Outras feitas, queremos ver o homem em toda sua magnificência e triunfo virtuoso, antevendo-nos, antegozando o dia incriado. Ele, nosso herói, quase nos tira da cadeira, nos empurra para o alto do assento da platéia. Eis-me-te, ele quer dizer, apontando para o homem que perdeu a vida e não os princípios no enredo pueril. Sou você ali naquela tela, página, palco, som. Sim, som. Também nas músicas se inscreve a atitude heróica, como na melodia triunfal das sinfonias. E também através dela, nosso herói nos lembra convicto o dia a que estamos desde sempre destinados. Não perde uma chance de nos avisar, até mesmo numa parada militar. Os tambores, as caixas, os metais, não remetem a outra coisa. O som jamais serviu para qualquer espécie de glorificação belicosa, como pensamos. Aqueles soldados que voltam vitoriosos para casa, orgulhosos de suas mortes, não venceram ninguém. Não são mais que soldadinhos de chumbo alquebrados, brinquedos de criança, iludidos de sua vitória. A alegria que sentem ao ouvir os clarins é antes o prelúdio tocado em seu íntimo pela vitória definitiva que, através de um silêncio retumbante, vai se impor em cada um da soldadesca. Nem banda nem fanfarra, pompa ou circunstância, nem gritos de euforia, o que de fato seus corações vêem e escutam é o que aponta e canta o herói que os consagra.

 

Djogai

Quando morrem os heróis II

Agosto 14, 2008 at 4:53 pm | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

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Contudo, o que me faz deixar os recônditos da floresta é o sinistro canto do Uirapuru. É a nostalgia antecipada dos heróis que findam nesses tempos inglórios. Os autores tanto pintaram os degradês de humanidade no herói que acabaram por lhe tirar a característica que faz dele um: não ser demasiado humano. Tornar os super homens mais humanos, mostrando-lhes as faltas, os limites, as dúvidas, seduziu o artista para o experimento estético, para a riqueza artística, para o outro lado da moeda, isto é, demonstrar que o mal também tem suas justificativas, suas razões, seus móveis íntimos. Isto acabou por desembocar na relativização da verdade. Os autores modernos constroem suas obras, filmes, livros, peças teatrais… baseados na premissa – defensável, diga-se – de que ninguém é inteiramente mal e ninguém é de todo bom. Buscam uma formulação mais realista, naturalista, em suas obras e criticam as antigas representações de heróis perfeitos, para quem torcem o nariz, como se estas fossem realizações artísticas de pequena envergadura, de estética pobre e pueril. Exagerou-se ao extremo tal raciocínio e aos poucos as antigas narrativas de homens valorosos foram vistas como lendárias, românticas, de apelo comercial e sem pé na realidade. Nos grandes quadros pintados pelos artistas do romance, do cinema, da televisão, venceu o olhar mais duro, rude e cínico da existência, onde qualquer esperança era tida à conta de ingenuidade ou, pior, exercício de homens de fé que, apesar da flagrante falta de expectativas lançadas à face pelo panorama desalentador da feia humanidade, refutam a vida real, preferindo crer em sonho imaturo, em quimera mística.   Isto abriu caminho para que fosse dado o último passo. O momento em que parcela dos artífices da arte descobriram o efeito estético da maldade, crueldade, da violência sem limites, da sexualidade exacerbada, em apelo aos impulsos primitivos da alma, como o sado-masoquismo por exemplo. Verdade, até certo ponto, estas pulsões são inerentes a todo indivíduo sadio, para os padrões da Terra, e devem ser consideradas como naturais à psique do homem em evolução. Porém, o fato das pessoas normais possuírem mórbido instinto não significa que devemos deixar de vê-lo como impulso inferior, básico, que igualmente cumpriu uma função importante na animalidade, caso contrário, sem ele, um animal teria repulsa de comer outro. A despeito de causar fruição artística – de gosto grosseiro – temos que lembrar que o objetivo da arte deve ser, até onde alcança minha visão, o desvendamento do que há de mais superior, excelso, sensível, humano, nos elementos constitutivos da alma. A raiva, a ira, a prepotência são manifestações bastante comuns nos dias de hoje. No entanto são provenientes dos instintos animais, básicos, que pertencem às forças primitivas da alma. Tais forças cumpriram uma fase importante na sobrevivência da espécie humana, porém já estão em hora de serem amainadas. Mal podem ser encaradas como sentimentos positivos ou, no mínimo, como estímulo promotor da sensibilidade do indivíduo, senão como simples mecanismos atávicos de proteção, ou manutenção da estrutura emocional adquirida. Ao assistir a uma cena de batalhas, por exemplo. As mortes se sucedem, o drama humano se estampa em toda sua dimensão e carregamos no espírito as fortes impressões da mortandade que, a despeito de ser artifício cenográfico, é capaz de estimular-nos as sensações primárias e nos imprimir no corpo durante muito tempo as imagens, as sensações e mesmo o cheiro da morte, dando-nos a falsa impressão de que a obra é duradoura, é permanente, enquanto realização artística. Aliás, está aí o conceito com que a filosofia da arte flerta nas últimas décadas, isto é, o poder de permanência como forma de aferir valor a uma obra de arte, sem apurar com rigor se a impressão causada pela obra se verifica somente por efeito sensacionalista, uma vez que o homem é ainda ávido por sensações – primárias, nota-se. Dessa maneira, a estética combinou com a filosofia e esta por sua vez com a ciência sobre a relatividade de tudo, especialmente dos atos humanos, seduzidos pela requintada coqueluche do pensamento dos últimos séculos: a perspectivação. A verdade passa a ser vista de acordo com a perspectiva de quem a vê, fazendo desvanecer em demasia a idéia de que os homens podem, e devem, ser heróis.  

Era necessário, portanto, que a moral ficasse de fora deste quadro. A moral não combinava com a fruição dos leitores-ouvintes-expectadores da nova estética do mal, consubstanciada nos impulsos básicos do homem. Impulsos estes que a ética sóbria tem por fundamento combater até o extermínio. Foram necessárias justificativas racionais para a irrazão. E a intelectualidade tratou logo de encontrar uma: “a verdade está na cabeça de cada um”. E reviveram o arcaico pensamento grego: o homem é a medida de todas as coisas.     Ah, que afirmativa perigosa esta, não? A verdade está na cabeça de cada um… Quantas abominações foram provocadas em nome dessa idéia? Em nome da relatividade da ética, muito mal foi trazido à lume, ou, melhor, à treva do entendimento. Atrás da marota pergunta, já sacralizada no Testamento por Pilatos, diante de Jesus “Que é a verdade”, acomodou-se muito crime e omissão criminosa.

Todavia, algo teima em sustentar o imaginário heróico. E, sobre isto, ainda quero falar um pouco mais, se me permitirem. Mas agora, a fogueira que nos acalenta crepita em seus últimos fulgores. Faz-se tarde, precisamos nos deitar e estamos atrapalhando o sono da aldeia. Amanhã, continuo a narrativa, para aqueles que ainda quiserem me ouvir. Boa noite, meus amados.

 

Djogai

Quando morrem os heróis

Agosto 9, 2008 at 5:17 pm | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

         Conhecemos o rumo da percepção humana pelo teor dos últimos filmes de super-heróis extraídos das histórias em quadrinhos. Notamos que hoje os defensores da lei e da ordem aparecem nas telas saturados de dúvidas, receios, tormentas íntimas e não sabem ao certo se suas façanhas sobre-humanas promovem ou prejudicam o bom andamento da sociedade, a qual socorrem contra os malfeitores que, por seu turno, ganham certezas e justificativas a seus atos criminosos. Quando eu era apenas uma menina, na tribo onde fui criada, no Amazonas, os mais velhos contavam lendas, onde ficava bem claro quem estava do lado do bem e quem do mal. A linha distintiva era evidente como um rio que divide dois torrões de terra. Não negamos o avanço do homem, na medida em que deixa para trás a visão simplista, maniqueísta e consegue perceber as nuances de verdade relativa na existência humana. Com efeito, é muito laborioso, senão impossível, julgar os motivos que levam alguém a infringir regras, a cometer crimes, de mesmo modo que também elas, as regras, modificam de tempos em tempos de acordo com a evolução da sociedade. A moral é também relativa a um espaço de tempo, não há dúvida. Mas a moral só é relativa porque o homem é limitado, ou melhor, sua percepção é limitada a condicionamentos e preconceitos de determinada época. Não se pode exigir das pessoas a conduta crística ou búdica se elas não têm condição de se comportar como Cristo ou Buda, pois não possuem a estrutura emocional e intelectual do Mestre, a despeito de a terem em forma embrionária. Porém, isto não quer dizer que exista uma verdade em cada cabeça. A verdade é uma só. O fato de uma criança ter dificuldade em seguir as normas sociais, não significa que a ética entre os adultos inexista. O conceito do certo e do errado em uma criança é relativo, damos descontos a ela, porque ainda não tem capacidade de discernir e seguir a moral adulta em sua inteireza. Por conseqüência do exposto, fragmentar a ética dos heróis torna-os mais humanos, é verdade. Porém, não é justamente a circunstância de um homem superar todos os outros que o alça à estatura de um herói?

O nosso espírito clama por um herói.

Meus queridos, não adianta toda a artilharia da razão nem toda a filosofia do homem, porque este clamor é implacável. E seguirá pelo curso do tempo por milênios, até que o homem não precise ouvir histórias de heróis, pois ele as saberá de cor. Pois será o protagonista de tais narrativas. Será o herói.    

 

Djogai

Senhor de teu destino

Agosto 9, 2008 at 3:21 am | In Escute Djogai falar | Leave a Comment

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Há um desgaste nas palavras, no raciocínio intelectivo e pragmático. Mas ainda assim a inteligência abstrata reage e procura salvação nas efemérides do mundo, na velocidade entorpecente do conhecimento fugaz, até quando a mente se encontra completamente batida, e o intelectual se queda na lona. Nessa hora, nada o pode socorrer, suas concepções arrogantes não o tiram da dor da falta de sentidos, pois não logram de novo o efeito letárgico do pensamento caleidoscópico. É chegada a meia noite da existência, momento em que os homens realmente inteligentes atingem o limiar da razão intelectiva e fragmentada, sentindo a ruína de toda a ideologia. Nenhum momento é mais trágico no caminho de uma alma e, todavia, a alma se encontra à porta da revelação. Revolta-se ainda, se debate, se insurge contra todo bom senso, mas, exausta, está prestes a ceder à sua inteligência superior. Primeiro porque o indivíduo é mais sábio, segundo porque é mais forte emotivamente. Os anos fizeram florescer em si o controle que tem sobre os sentimentos atordoantes e agora pode domar-se, pode viver sem inventar razões para suas fraquezas. Fraquezas que o faziam desdobrar pensamentos desdobrados numa miríade infernal e enfadonha. Agora, é outro. Sobrevém o pensamento direto. Puro. O mesmo pensamento que nos faz dar um conselheiro coerente e certeiro aos outros e que nos falha ao usarmos para conflitos próprios. Agora, será o guia e o norte do novo homem, que por certo empreenderá caminho de poucos tropeços. Aqui, ele vê-se senhor de si ou, que é o mesmo, senhor de seu destino.

 

Djogai

 

(postado no www.digestivocultural.com )

 

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